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Mais um ano na lista dos bem vividos

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“Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?” (Confúcio)

 

Cê tenta estimar: 30 anos, com tanta energia, sentada no chão

Cê tenta acertar: uns 50? Prata no cabelo, ouro no coração…

 

Cê tenta encontrar uma irmã, uma esposa, uma filha, de dedicação

Cê tenta entender essa mãe, essa tia, essa avó é um camaleão

 

Cê tenta cuidar-nos pra sempre, levando no colo, qual os cangurus

Cê tenta bordar ponto cruz, tecer uma vida louvando a Jesus!

 

“Cada um tem a idade do seu coração, da sua experiência, da sua fé.” (George Sand)

 

Salve 11/out/1942

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Angelus

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Acabaram de sair de casa. Um deles trajando o verde espantado da camisa que uma vez o Ademir da Guia assinou. O outro, vestindo uma camiseta em que se lê “Germany”, a casa da Oktoberfest, o destino de daqui a quatro horas.

Foram de trem, acordaram atrasados e perderam o primeiro. Disseram ter tomado café da manhã e o cheirinho de pão torrado me fez acreditar. Ficaram em pé, olhando minha cara amassada e despenteada, com sorrisos pacientes no rosto.

Nao quis pegar a máquina fotográfica no quarto, porque a noite com o pequeno exausto de tanto passear com os tios não foi assim muito lisa. Disse a eles que teria a foto na minha mente. Quem duvida?

Respirei fundo e, assim que tomei coragem, o sino da Igreja tocou, tambem ele decicido. Vamos rezar um Angelus? Hum hum, me esperaram chorar umas lágrimas encabuladas antes de conseguir começar, e repetimos juntos as mesmas palavras que declamavamos habitualmente anos (vários anos) atrás.

Segurei as duas mãos mais irmãs que tenho e vi um enroscar o dedo do outro, como quando ficavam de bem depois de brigar. Não só por isso, mas tenho certeza de que já fizeram as pazes para sempre.

Faça-se em nós segundo a Vossa palavra. Em nossas vidas, em nossas famílias que são uma só. O Verbo habita entre nós.

Bodas de açucar

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– Meninos, hoje nossa oração vai ser por uma coisa muito especial. Hoje é dia oito de setembro, vocês sabem o que aconteceu seis anos atrás?

– Eu sei! – o grito empolgado do Davi me deixou toda importante. – Falou na minha escola! É sobre um imperador!

Olhei para o Digo com um sorriso cúmplice. Ouvimos nosso sabidão continuar:

– Ele chamava Dom Pedro – inspirou interrompendo a frase e olhou para o irmão, abaixando o tom de voz – igual seu nome, Pi!

– É, igual meu nome, Davi!

Eu e o Digo rimo-nos cúmplices. Tentamos fazer a História continuar, mas o Davi proclamou sua independência dela e começou a discursar sobre os nomes dos familiares e amigos, e a soletrar aqueles que já sabe escrever.

– Então, meninos – disse eu, retomando meu desejo de agradecer a Deus – hoje é um dia muito importante, porque faz seis anos que a nossa família começou. Vocês sabem o que aconteceu nesse dia?

– O primeiro nasceu.

– Não, filho, duas pessoas já tinham nascido.

– Eu e o Pi!

– Não, vocês ainda não, vocês são os mais novos.

– Por isso que a vovó Neusa já é velha… – vinha ele de novo, desviando o rumo da prece.

– Então, a vovó Neusa já tinha nascido mesmo – resolvi ir direto ao ponto -, esse foi o dia que o filho dela casou comigo! Foi o dia que o papai casou com a mamãe! Alguém quer fazer um agradecimento por causa disso?

– Eu quero agadecê! Obgadu que vocês casaram e eu também quero casar com vocês!

– Ih, mas não dá pra casar de três, será que dá?

Gargalhamos cúmplices, nós dois, esposos e pais desses dois dons de Deus.

E, seis anos depois, podemos reiterar o clamor daquela grande noite: “Que a família que hoje se constitui, e todas as famílias do mundo, vivam em paz e unidade, sob a luz divina que iluminou Sant’Ana e São Joaquim, Maria e José. Senhor, por intercessão de Maria Menina, ouvi-nos.”

Marta, Marta

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Lendo historinhas da Blíblia* antes dos meninos dormirem, detivemo-nos na passagem de Zaqueu (Lc 19).

Porque tinha tanta gente? Porque ele subiu na árvore? Porque ele era baixinho? Porque Jesus foi na casa dele? Porque ele desceu correndo?

Ah… Foi aí que eu me peguei respondendo por mim! Enumerei tudo o que faria antes de receber o Mestre em casa: essas roupas aqui para guardar, cama para arrumar (ainda, quase na hora de desarrumar de novo!), brinquedos para recolher, janelas para abrir bem, perfuminho de ambientes, um bolo delicioso no forno, quem me ajudaria com o suco?

A expressão impactada deles contrastou com minha expectativa de que brigariam para coar o suco de Jesus, assim como brigaram para coar seus próprios sucos horas antes.

Por quê? Foi o que o Davi me perguntou, verdadeiramente curioso. Por que você ia fazer tudo isso?

Como sempre, eu, reflexamente, comecei a responder. Ah, porque eu ia querer preparar tudo muito bem pra receber a visita de… Filhinho, o que você ia fazer se Jesus viesse aqui em casa?

Pedir pra ele trazer a mãe dele.

Engoli.

Pra gente poder brincar juntos. Se o pai dele viesse também, ia dar pra gente jogar um jogo bem legal, todo mundo junto.

Reengoli. Jesus, tão homem quanto meu marido, provavelmente nem perceberia mesmo a montanhinha de meias do avesso ali no canto. E poderia passar a visita toda sem se dar conta das manchas na toalha. Mas adoraria divertir-se espetando o Pula Pirata. (Tá bom, vai, montando um celeiro de Lego, que é um pouquinho mais legal). Ou apostando corrida com dois menininhos fofos e uma coleção de Hot Wheels.

Davi queria a companhia, a convivência com sua amada Maria (“que eu rezo todo dia de manhã no caminho da escola, né, mãe?”), queria sua companhia, aproveitar o tempo na presença da Sagrada Família. E, de brinde, em sua fala também me dizia que ama brincar com mães e pais em geral…

Acariciei a bochecha dum iluminado filho enquanto o outro pedia pra falar, palhacento:

Será que Jesus ia comer uma banana estragada?

Não, Pi, opinou rindo o irmão, ele ia comer só uma banana feita de amor…

Um pouco mais infantil, mas ainda surpreendente.

Aline, Aline, “tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas, porém uma só coisa é necessária…”**

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*OLESEN, C. “Minha primeira Bíblia: histórias da Bíblia para crianças”. Il: MAZALI, G. São Paulo: Ciranda Cultural, 2006.

**Lc 10, 41

Cenas de solidariedade por ocasião da Páscoa*

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A imagem do escuro/claro foi a tônica com o Davi nesta Páscoa. Ele entendeu muito bem que às três horas da tarde na sexta-feira santa, quando Jesus morreu, ficou tudo escuro e “chuva, e céu preto e monstros e fantasmas”; a manhã da ressurreição, por outro lado, foi cheia de luz “e as pessoas ficaram felizes porque têm Jesus no coração”.

Tendo introduzido o tema da luz e das sombras, posso contar que durante esta quaresma o lustre de nossa sala queimou, e fomos ao supermercado, eu e os meninos, comprar uma lâmpada para reposição. Depois de passar três vezes pelo mesmo corredor respondendo a infinitas perguntas sobre pneus, lanternas e porque crianças não podem ganhar brinquedos para cachorros, resolvi perguntar para uma moça se ela sabia onde ficavam as lâmpadas.

Enquanto ela me respondia “bem ali”, apontando para algum ponto exatamente debaixo do meu nariz, percebi que ela vestia uma camiseta do uniforme da escola onde estudei durante oito anos. Perguntei o nome dela e me vi abraçando-a, enquanto exclamava “a minha professora de Educação Física!”.

Apresentei meus filhos a ela, e ela a meus filhos. O Pi pouco mudou, continuou sentado no carrinho com sua carinha branca. O Davi começou a piar enquanto eu pedia que ele dissesse “oi”, e a rosnar quando a moça começou a explicar os atrativos da escola para crianças de seu tamanho. Levemente frustrada, me despedi.

Reencontramos-nos minutos depois, na fila do caixa, quando a professora estacionou seu carrinho atrás de nós. Uma senhora pagava sete ou oito contas em nossa frente, o Davi começou a comentar sobre os ovos de Páscoa que forravam a loja, a apontar para seus eleitos, a pedir um deles – o azul – e a fazer uma cena inesquecível de birra. Eu mantive a calma, na verdade estava mais preocupada com a contrariedade por passar por isso às vistas de uma professora que há anos eu não via, do que em driblar os maus modos do menino. 

Quando o constrangimento pela gritaria do Davi, já deitado no chão, após ter usado todos os seus argumentos sensatos (como me dizer “mamãe, estica seu braço e pega o ovo pra mim, você precisa ter coragem!”), transbordou de mim e chegou à minha mestra, ela comentou algo sobre a demora da fila e levou seu carrinho de compras para outro caixa, bem longe dali. Semi-ufa.

Mas a birra continuou e contagiou o irmão. Os dois chorando-gritando, eu começando a considerar impossível passar todos os itens do carrinho pelo caixa, ensacolá-los  com o Pi no colo, pagar e chegar até o carro sem danos à  integridade física de ao menos um de nós. Perguntei à senhora de nossa frente se ainda tinha muitas contas para pagar e ela respondeu, educada, que “não, só mais essas três”. Devo ter feito uma cara de pavor, embora tenha procurado manter minha expressão neutra.

Instantes depois, vi que a senhora mexia os lábios olhando para mim. (Exato, poderia ter dito que ouvi a senhora falando comigo, mas de início não ouvi absolutamente nada além do berreiro de minha prole). Cheguei mais perto e detectei que ela havia interrompido seu pagamento e se oferecia para me ajudar. Começou a pôr meus itens na esteira antes que eu pudesse aceitar. Enquanto isso começou a contar para o Davi que “todos aqueles ovos de Páscoa na verdade estão vazios, porque o coelhinho ainda está fazendo o chocolate, que está mole e só fica pronto na Páscoa”.

Nunca me senti tão bem em relação a uma história engrupidora de menores; os dois pararam de chorar, eu primeiro endossei tudo o que minha consciência permitiu (a outra parcela transformei em “é mesmo?”s), enquanto ela empacotava nossas coisas.  Terminei de pagar e encher o carrinho me desfazendo em gratidão, ela distribuiu “de nada”s sinceros e ainda completou dizendo que “não somos nada sozinhos” e que “nessa vida é um por todos”. Fez todo o sentido e eu tive uma certeza muito encaixada de que também agirei assim quando as crianças choronas da fila não forem as minhas.

Saí de lá sorrindo e serena, tocada com a humanidade que tinha acabado de me encontrar. 

Voltando à luz e às trevas: muito embora tivessem dormido apenas oito horas e durante este período acordado, ao todo, cinco vezes, os meninos despertaram ao primeiro raio de sol nesta manhã de Páscoa. Amamentei o Pedro enquanto fazia planos ousados de levá-los comigo à missa das sete.

Desejamo-nos Feliz Páscoa, encontramos os ovos e cenouras de chocolate que o coelhinho deixou em nossa sacada ao lado da cenoura que deixamos para ele. Engolimos alguns bombons (o Pedro também experimentou os restos da cenoura suja de terra, provavelmente a única coisa saudável que comeria neste dia), nos vestimos, nos despedimos do papai e de seu tornozelo torcido e levamos os brinquedos que vieram nos ovos de Páscoa para a missa.

Nos primeiros minutos dentro do carro o Davi me lembrou de que ainda não tinha feito xixi. Aturdida, conferi com ele se daria para aguentar até a Igreja. Ele consentiu e eu confiei. Chegamos ainda antes da homilia – eu, um coelhinho de pelúcia, as únicas crianças menores de sete anos de toda a Igreja e uma mala maior que uma delas.

Logo no penúltimo banco estava o vovô, que recebeu o Pedro resmunguento de “mamãínn” enquanto eu levava seu irmão mais velho ao toilette. A tia-avó organista nos acompanhou – e segurou o coelho – enquanto o Davi se aliviava reclamando do cheiro de banheiro. 

De volta à Igreja, ele educadamente desejou “Feliz Páscoa” baixinho a todos os conhecidos que encontrou e estabelecemo-nos no banco em que vovô e Pi nos aguardavam. Uma senhorinha fez questão absoluta de ceder seu lugar a nós e manter-se em pé até o final da missa. Mais tarde justificou-se, incluindo nas explicações sua “diverticulite nos intestinos”.

 Não entrarei em detalhes quanto à bagunça e aos ruídos que os meninos originaram durante os minutos de celebração que se seguiram, nem ao menos descreverei os malabarismos que me vi fazendo durante a consagração, em pé no corredor central com um filho no colo (querendo jogar para o alto a bola que segurava) e o outro filho no banco (chorando porque não estava grudado em mim).

Bastará dizer o quão encabulada fiquei após os cristãos idosos que nos rodeavam terem abaixado em média três vezes cada um para recolher os folhetos/peças de brinquedo/sapatos que os meninos compulsivamente deixavam cair.

Achei por bem sair da Igreja com as cuias (a mala ficou com o vovô) e deixar que os pequenos brincassem num cantinho do átrio com as mil pecinhas que haviam levado. Foi aí que uma nova cena marcante de solidariedade teve lugar.

Um senhorzinho, que se apresentou como alfaiate do padre, abaixou ao meu lado e me disse que agora eu não sei, mas um dia saberei; ele tem um bisnetinho que entra em casa correndo e perguntando se “o f*%$ da p&#@ do bisavô dele já foi para a alfaiataria”. (Por uma fração de segundos fiquei em dúvida se o senhor estava reclamando da ingratidão dos seus descendentes, mas logo percebi que não).

Mostrou-me sua carteira com a imagem da Sagrada Face, disse que as crianças são a melhor coisa do mundo, reforçou que um dia, quando eu tiver meus netos, eu saberei, e terminou desejando Feliz Páscoa e dizendo – já teria sido muito bom se ele não tivesse terminado assim, mas devo enfatizar que ele disse  – que viu a forma carinhosa como eu entrei com os meninos na Igreja.

Nesse instante, o embaraço, o cansaço e a ponta de arrependimento por ter levado meus filhos à missa das sete deram lugar à gratidão, à consciência de comunidade e à clareza (com todo peso da palavra após estas linhas) do que é a Páscoa.

 

*Escrito na manhã de Páscoa de 2011.

DeclAMAções

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Há alguns dias, emissões inequívocas vem escapando de seus “lábeus”.  Geralmente no carro, rompendo longo silêncio.

Comecei a observá-las com mais diversão no dia em que escutei, vindo do banco de trás, o CPF do pai cantarolado baixinho, continuamente.

No dia seguinte, brotou do silêncio absoluto em nossa volta para casa: “não quero pôr gasolina comum”.

No outro dia, observando alguma coisa em algum jardim do caminho, soltou: “regador não é mangueira”.

No outro, equilibrou o Cascão no braço do cadeirão e ordenou: “Fica aí dzi pé, sentadzinho!”.

Numa noite, afirmou: “Eu tenhu medu du iscuro, mas iscuro não existe”.

E na noite seguinte, com pai e irmão também no carro, perguntou: “puquê dzi noitsi a zentzi passia intêro?”. Pedimos três repetições. Continuamos não entendendo. Ele, exigindo uma resposta, gritou: “Pegunta pa mim!” Então o sexto sentido materno sussurrou no meu ouvido que se referia ao fato de estarmos ali família inteira.

Hoje eu tentava acordar o irmão para a tão esperada missa vespertina do Lava Pés, quando ele apareceu calçado, dizendo: “eu puis sandália, eu tô lindo”. Tentou um pouco solucionar a correia solta, irritou-se, silabou “GI – FI – ÇÔ!!!”, desistiu e veio até mim: “eu pidi azuda”.

Sandálias calçadas, desapareceu, fuçou onde não devia e, num arroubo de consciência, voltou dizendo: “eu não vou mecei em nada, eu só mecei na póita da casa”. Forçando naturalidade eu indaguei: “e você é adulto ou criança?”. Contrariado, prevendo o efeito da retórica da mamãe, assumiu com as exatas seguintes palavras: “Nem adulto, nem quiança. Sou um minino bávu e sátu”.

Porém, ingênuo quem realmente acreditou que ele não é criança. Como se classifica alguém que grita mais que o coral de idosas em quinta feira Santa para informar à Igreja toda que “o Bolêro tá icondido nu colai!”. Sendo que este mesmo alguém, minutos antes, tratou de ocultar-se embaixo do banco e embaraçar no colar colorido da mamãe braços e pernas do valente arqueiro…

Mas ele mesmo logo o admitiu, após a comunhão. Começou perguntando “o que você tá comendo?”, ao que eu, por reflexo, quase respondi “Jesus”. Só que, imaginando o desdobramento da conversa, que era acompanhada por toda a silente assembléia, optei por reproduzir a resposta que muito ouvi durante minha infância: “a bolachinha da paz”. “Ah. Também quero”. “Primeiro você precisa ter dez anos e fazer a primeira comunhão”. Como eu voltasse à posição de contrição a cada linha do diálogo, apesar das muitas risadinhas comunitárias – que eu não condeno –, ele resolveu calar. Apenas estendeu a mim os dois dedinhos magrelos, indicando a idade. Então redecidiu falar com energia: “Quiança não podzi comê bolacinha da Igueza, quiança podzi comê bolacinha da minha casa i assiti tevisão na minha casa i VDD, i í nu cólu e dá a mão”.

Criança pode tudo isso mesmo. E, nesse caso, até adulto pode rir como criança. E foi o que eu e muitos fiéis fizemos juntos.

 

Exagérese

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Nenhuma vez me disseram o nome desse troço. Tá escrito “e-caligrafiaruím-ese”. Nas idas e vindas do agendamento, eu arrisquei todas as pronúncias que me pareceram possíveis, e só ouvia em resposta um “hum” – em todos os casos. Hoje na clínica resolveram chamar de “procedimento”. Procedimento é escovar os dentes. Estacionar o carro. Dobrar um lençol de elástico…

Clínica cirúrgica, procedimento cirúrgico, sala cirúrgica, maca cirúrgica, campo cirúrgico. E eu ali, deitadinha, durinha, sensivelzinha. Para a retirada de um cisto cebáceo.

A última vez em que aconteceu algo parecido foi na despedida do meu último terceiro molar. (O quarto, então, hehe). Uns vinte e um anos, eu devia ter. E chorei a tarde inteira tomando sorvete no sofá da sala. De pura dó de mim.

Já as primeiras vezes em que passei por algo assim… Inesquecíveis: Aos quatro anos pulava na cama obstinadamente e ouvia a ameaça “cabra maluca quebra os cornos”, como um mantra dando ritmo à molequice.  Caí de testa no baú de cabeceira. Lembro da pia do banheiro cheia de gelo e sangue, e de ter manchado a jaqueta (“capinha”) branca que minha avó tinha lavado na véspera – esse detalhe é o que faz mais efeito no Davi quando conto essa história para que ele pare de pular na cama, ou obedeça, ou saiba que eu, quando criança, também pulava na cama e desobedecia: a capinha branca recém lavada toda manchada de sangue. Dias depois, fui tirar os pontos engatinhando pela calçada, por dois quarteirões, de tanta birra que eu fiz e de tanta firmeza que minha mãe teve.

Aos cinco, operei do primeiro ssisstossebásseo, que eu denominava com o charme do ceceio anterior. Cenas de terror na sala de espera, depois de muito-muito esperar, quando a enfermeira resolveu (coitada, não foi ela que resolveu isso, eu sei) que minha hora tinha chegado. Bem aquela hora, em que minha mãe tinha ido rapidinho no carro amamentar meu irmãozinho. Eu lá no colo da minha avó, de onde não queria sair em hipótese alguma, muito menos para o colo de uma desconhecida vestida de branco, que me puxava com muita força. “Não deixa eles fazerem isso comigo, vó!” – eu gritava o mais forte possível. Ela, com suas unhas vermelhas e seu colo macio, provavelmente partida entre o dever e o querer, precisou me entregar. Logo um cheirinho fumacento de morango calou meus prantos. E depois da alta eu ganhei cachorro quente e brigadeiro.

Hoje, olhando para aquele tudo branco comecei e me sentir uma verdadeira vítima. A posição paradoxal de passividade em que a gente se encontra nesses casos é demais para mim: o corpo é meu, a coxa esquerda é minha, o cisto é meu e só o que eu posso fazer é respirar e relaxar. (Para quem gagueja isso é péssimo de se ouvir. E para quem se submete a uma e-sabe-lá-o-que-de-lesão-cística também.)

Esperei, por cinco picadas, a anestesia pegar. A partir daí, só tive que abstrair do remelexo que ocorria em minha perna para iniciar uma linda viagem pelos caminhos da imaginação. É claro que foi então que me lembrei dos detalhes acima descritos, e – especialmente na parte da capinha branca, da unha vermelha e do brigadeiro – eu solucei. O que fez a enfermeira perguntar se estava tudo bem, dizer para eu respirar e para eu relaxar. Paciência.

Conheci os pequenos furinhos interrompendo o branco eterno da parede azulejada, as bolhinhas da pintura branca do suporte da luminária. Ouvi barulhinhos que tentei, em vão, ignorar. Está cortando? Está queimando? O que ele está ligando? Cocei uma coceirinha no pescoço. Tocou meu celular. Duas vezes. Pedi desculpas – uma vez só, hehe.

Lembrei de uma vez em que o otorrino da minha paciente me disse por telefone com sua irônica voz que, sabe como é, era melhor eu não acompanhar a frenectomia dela não, porque eu podia desmaiar.  Naquela oportunidade eu tentei argumentar até onde a humilhação permitia, mas hoje eu diria, muito serenamente, “o senhor tem toda razão”.

Deitada naquela maca, vendo a hora passar, eu decidi que sim, eu era forte, eu era uma profissional da saúde muito bem formada, mas livre para optar por não espiar nada que estivesse acontecendo em frente ao Dr. Dermatologista. Foi quando um movimento ocular rebelde e insubordinado fez com que eu visse uns dedos de luva sujos de sangue. Pronto! Destruiu meu sonho. Justo quando um arco íris com fim em si mesmo emoldurava minhas lúdicas imagens de esferas perfeitas e branquíssimas saindo de dentro da minha pele e flutuando para a atmosfera, compondo com o tom salmão do meu vestido uma cena digna de Jelly Jam.  

Bem, depois de tudo terminado, doctor D. foi muito nobre em me estender sua pinça com aquela… verdadeira… bola de sebo pendurada na ponta. Mais nobre que o obstetra que negou-se a me mostrar a placenta do meu filho. Será que é porque o bebê ficou só nove meses dentro de mim, enquanto que o cisto ficou logo uns vinte anos? Hum…

Sei que, oscilando entre o lugar comum do alívio pelo fim da novela cirúrgica e o temor do que meu corpo possa vir a aprontar agora, eu muito me confortei ao rezar no começo e no final de tudo a invocação a Santo Inácio de Loyola: “Dentro de Vossas chagas escondei-me”. Certamente, é das chagas e dessa súplica ao bom Jesus que vou me lembrar sempre que olhar para essa cratera em minha perna e para a cicatriz que agora faz parte da minha história.