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Esta noite

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Esta noite

Esta noite riram muito comendo farofa e pedi que tirassem as roupinhas ali mesmo, para evitar a sujeirada no resto da casa. Aliás, que “desavessassem” as peças e as colocassem logo na máquina.
Tinham até a intenção, mas a lâmpada queimada da lavanderia deu medo. Travaram ali, peladinhos ao meu redor.
Então, risoletos que estávamos, inspirei-me nos teatros da infância e arregalei meus olhos dirigidos ao nada enquanto dizia “mas ali no escuro não tem nada, só aquele esqueleto horroroso!”.
Saltitaram gritando e gargalhando nervosos ao meu redor, e percebi que provocara algo difícil de reverter. Que culpa. Às vezes é irresistível, mas não faço mais isso. Não tem graça, justo a mamãe botar medo nas crianças.
“Né que esqueleto não existe?” perguntou o caçula. Tecnicamente, filhote, não posso te confirmar. Mas derivei: “Ah, se alguém vê um esqueleto de pé pode saber que é de mentira, porque um monte de osso sem músculo e sem pele cai tudo no chão”.
“Mas eu tô com medo de bruxa, mamãe”, especificou o mais velho.
“Uai, e bruxa lá existe?”, tentei eu, mas desisti quando ele me afirmou categoricamente que sim.
“Mas Deus salva a gente dela”, disse o irmão. “Deus tem o poder da alegria!” e, quando eu já suspirava aliviada, emendou: “ele transforma as bruxas em menininhas engraçadas”.
E foi assim que prosseguimos para o banho, os três grudados casa adentro, box aberto por via das dúvidas, e um rabo de olho grudado na janela, para controlar entradas suspeitas.
“O que foi isso, uma bruxa?”
“Nessa janela desse tamanho, filho? O bumbum da bruxa entala e ela solta um pum que faz o gato preto miar desmaiando!”
“Mas e um esqueleto, então?”
“Aqui no sexto andar não chega um ossinho sequer!”
“E nem no Egito tem esqueleto?”
“Você tá falando de múmia?”(Oh, vida cruel, porque raios fui lembrar de mais um personagem?)
“Aaaai…”
“Não, a faixa dela enrosca num preguinho lá no térreo e ela chega aqui em cima toda desenrolada, gritando ‘ai, estou nuuua!’ Falando em nu, vem cá se vestir”.
Empijamados, escolheram dois livrinhos sobre o tema do medo e lemos saborosamente. Riram das minhas “dublagens” e da expressão um do outro quando escutaram passos sorrateiros…
Não era um monstro! Era um cavalheiro trazendo flores para sua amada!
Tentaram escalar nosso abraço, o letrado fuçou meu cartão, senti o perfume das rosas misturado ao do marido e ao de xampuzinho suave…
O Poder da Alegria invadiu nossa casa esta noite.

Mozzzquitozzz

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Levantei enfurecida aos quarenta e cinco minutos de um novo dia. Como se um pernilongo petulante me dissesse ao pé do ouvido: “dzzurma com ezzze bazzzulho…”

Recrutei marido para a cama, amanhã viajaremos cedo. Ele demorou para entrar no quarto. Demorou para pegar no sono. Mas eu demorei mais do que ele. Até que resolvi levantar para matar o pernilongo que eu não conseguia enxergar só com a luzinha de apoio.

Olhos espremidos de sono e claridade, pés descalços no chão frio, cabelo insistindo em cair na cara. Três príncipes capotados ao meu redor, tão dormindo que não puderam apreciar minhas poses ninja em trajes pouco nobres correndo atrás daquele inferno em forma de mosquito. Que logo percebi serem dois. E que, depois de morrer esmagado pela terceira vez, compreendi serem mais.

Um foi avistado na tela de proteção da cama do Davi. Voou de mim assim que o ataquei. Outro, no osso do pé dele, ali mesmo, onde a picada mais coça. Sensação total de ineficiência. Por fim, vi um dos grandes na têmpora esquerda do meu branquelinho alérgico. Peguei fogo!

Comecei a confundir os restos mortais rodeados por sangue inocente com os próprios mini-vampiros. Qualquer sombrinha era suspeita, e bati vorazmente no teto e nas paredes com minha arma de alta destruição, uma camiseta branca (que talvez nunca mais volte a sê-lo).

Numa das minhas visitas à caminha do Pi ajeitada no chão, percebi que bem ali ao lado, debaixo da minha cama, havia a maior densidade demográfica de bichos. Então fiquei de plantão, abaixada por sobre ele, já salpicado de picadas e erupções alérgicas. Até que ele acordou.

Coçando-se, me perguntou o que eu estava fazendo. Depois disse choramingando que não queria mosquitos nele. Tranquilizei-o e menti que mataria todos, e que ele podia dormir tranquilo. Na luz acesa. Com a mãe montada em cima. Sei.

Ficou me mostrando com o dedinho em riste por onde voavam os pilantras. Minutos depois, quando eu bailava pelo quarto desviando de roupas sujas, sapatos de quatro tamanhos e malas abertas, ouvi uma espalmada forte – que não era minha. Mãozinhas abertas tocando-se ainda, montou um sorriso maroto, olhos fechados, e declarou: “matei!”.

Comecei a rir, tanto que o marido acordou. De sua posição estratégica, o alto do beliche, poderia ser um grande aliado. Recebeu como arma uma calça de pijama enrolada e ordens expressas de fogo. Passou a me indicar com um “ali-ali-ali!” todo movimento suspeito, e fiquei um tanto confusa entre as minhas presas e as dele. Decorei a geografia do quarto e passei a ser capaz de desviar de pernas, de livrinhos infantis jogados e das quinas doloridas dos móveis sem quase olhar.

A cada pouco, eu ia espantar o vento ao redor dos meninos e estimar quantos criminosos ainda haveria sob a cama pelo nível de ruído.

Numa das aproximações ao Davi, ele acordou, arregalou bem os olhos, testa franzida, e perguntou: “que foi?”. Já meio carrancuda, respondi apenas “matar pernilongo” e ele levantou  bambo, equilibrando-se sobre o colchão, resmungando “matar pernilongo agora?! Mas eu tô morrendo de sono!”, como se houvesse acabado de ser recrutado pela minha frieza assassina.

Gargalhei abraçando-o e devolvi-o ao seu colchão, mais coberto do que antes, apesar do calor. Ele pegou no sono ainda com a mímica do sorriso no rostinho, tanto ri que riu comigo, sonado e tudo.

Matamos uns nove. Desisti rendida pela frustração e desiludida pelo número progressivo de filhos de uma p…. ernilonga-pouco-criteriosa-para-a-escolha-de-parceiros que surgiam dos mais inusitados lugares.

Deixamos o quarto salpicado de cadáveres, sim, mas mais salpicado de bolinhas vermelhas ficou o rostinho do Pi.

Transpirei nessa brincadeira mais do que nas caminhadas de final de tarde ao pôr do sol ardente de Bofete, mas em certo momento senti que algo no ar estava mais fresco, e resolvi deitar um pouco, apenas para observar o movimento.

Planejando o equipamento anti-mosquito da próxima temporada, percebi que começara a sonhar e resolvi escurecer de tudo o resto de noite que ainda me sobrava. Com as mãos sujas de sangue, a cabeça coberta pelo lençol e um sussurrado “zzzabia que o zzabiá zzzabia azzzzobiar” no ouvido, dormi até o amanhecer.

Horas depois, levantamos nos coçando, recolhendo os vestígios da batalha sangrenta, e conversando empolgados sobre o filme de ação que azzzistimos na madrugada.

Fulana

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Com a adrenalina da coragem e o orgulho da superação, Davi brincou hoje no parquinho como nunca antes havia brincado. Trepou, transpôs, pendurou-se, encolheu-se, inventou e divertiu-se. Parece que a percepção do Pi estava aguçada horas antes, quando eu o chamei para calçar os sapatos – e ele pode preferir chinelos: “eba! Passear com você é muito divertido!”.

Nesta tarde, gritaram muito, por excitação, medo, satisfação.  Rimos muito, pelas caras, bocas, gestos, ideias malucas e tiradas incríveis. Senti os corpinhos macios, as mãozinhas pequenas, o peso dos quilos (me refiro aos deles!), o cheirinho suado dos cabelos grandes e o hálito do açaí que repartimos em três.

Vi que o pé do Davi está crescendo e mudando, os dedos vizinhos estão ficando ossudos, compridos demais, e a gorducheza se foi. Uma ponta de melancolia me espetou na cintura (ou será que nessa hora foi uma cócega frenética que eles me fizeram?), mas tratei de arremessá-la no fundo da piscina de bolinhas, afinal, o que mais eu quero do que cinco anos de um pezinho perfeito?

Nesta tarde viveram a infância. Quiseram de tudo. Pediram para morar ali no clube, todos os dias da vida. Pediram para ir cortar o cabelo, declararam estar com saudades do Amarildo, o barbeiro deles; pediram para convidá-lo para ir à nossa casa, mas então que eu fizesse amizade com a mulher dele e tornasse isso possível.

Exibiram-se equilibrados lá no alto, berraram “mamãe” com todo poder de suas goelas, tanto me sugaram, me puxaram, se penduraram em mim, que soltei, risonha: “vamos escolher mais uma mãe pra vocês, que uma só pros dois tá muito pouco?”. O Pi, com os fios amarelos de cabelo pendurados por estar quase de ponta cabeça no meu colo, levantou-se com os olhos muito arregalados e as comissuras labiais apertadas num sorriso satisfeito: “Siiiim!”. “É, filho? E quem vai ser?” Ele respondeu prontamente com um único nome e seu rosto de alegria.

Minha cabeça rodou por Fernandas, Helôs, Caróis  e Moiras, Ciças, Neusas e Iaiás, amigas, professoras e personagens dos desenhos, envergonhada pelo lapso de não me lembrar quem seria aquela fulana de quem ele aceitaria ser filho. A risada imediata do Davi estourou a bolha dos meus pensamentos: “Pi, o Amarildo é homem, ele não pode ser mãe!”.

Quando acumulei meu riso ao deles, me ocorreu que “a Maria” por ele citada era… exatamente Ela. Meu coração acelerado da aeróbica derreteu-se em comoção e meu peito ofegante arfou de devoção. Tanto, tanto eu tenho pedido que Ela me empreste sua docilidade e sua paciência de mãe, de esposa, de mulher!

Nem cílios, nem dentes, nem pés crescendo, nem vozes felizes, nem a joaninha de catorze pintas que aceitou andar na mão do Davi, nem o calorzinho dos muitos abraços que recebi nesta tarde. A coisa mais linda do dia foi ouvir que meu filhinho quer ser meu irmão.

Retrato de alguém que precisa melhorar

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Uma das atividades mais legais que o Davi fez na escola foi a releitura da obra de arte de Giuseppe Arcimboldo, na a qual usaram frutas para fazer um retrato e depois comeram de sobremesa.

Numa tarde que se encaminhava para ser mais calórica do que saudável, eu resolvi fazer circulozinhos verdes de kiwi, barrinhas amarelas de banana e lasquinhas vermelhas de maçã. Ficaram motivados e envolvidos. De quem eram aqueles os olhos verdes? Da vovó Ciça, claro!

– Mas e os óculos? – protestou o Pi. Sim, senhor, óculos nela.

– Não tá parecendo muito… Vou fazer de novo. Ah, não!

Em outro prato, armou olhos, nariz e boca. Mas usou as hastes dos óculos para fazer as sobrancelhas. Quase verticais.

– Essa você adivinha quem é.

– A vovó Ciça?

– Não. Outra pessoa. Uma mais brava, olha. – indicou as barras de banana, severas sobre os olhos.

– Não sei…

– Você tem que adivinhar uma pessoa brava, com as sobrancelhas assim.

– Acho que já sei…

– Então fala – desafiou-me com um sorriso corajoso.

– Eu…

– Acertou, ó! – apontou meu rosto.

– Eu sou muito brava, é?

– É, muitas vezes você é muito brava comigo. Precisa melhorar.

Ri, o que mais eu poderia fazer? Carinho em suas bochechas e um cheirinho atrás da orelha? Fiz também.

(Temos aqui o retrato da vovó Ciça. O da mamãe brava foi consumido antes da fotografia, porque os cabelos castanhos de chocolate granulado, esvoaçando sobre todo o rosto, estavam apetitosos demais. Ok, algo de doce eu devo ter, também…)

 

Lobo bom

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Lobo bomAbre a porta de casa o homem da minha vida sem ninguém nos braços. Cadê o caçulinha que deveria estar ali, capotado? Antes mesmo que eu trace minhas hipóteses, irrompe corredor adentro a alegria em forma de gente, barulho dos passinhos marcando o chão, de tênis e pijama. Me vejo agachada e sorridente, preenche meus braços abertos um abraço loirinho. “Mamãe…”.

Sorriso, olhos fundos de sono, pele branca e suave, capuz vermelho até a testa. “Você conta historinha?” Desligo minha comédia romântica, que importância ela tem agora? Beijo o crianço adormecido no carrinho menor que ele, beijo o pai de todos, cheiro de escritório, barba por fazer, promessas para esta noite.

Sentamos no sofá, eu, meu albininho e dois volumes. Ele sabe pular como um macaco, correr como um cachorro, nadar como um golfinho, voar como uma borboleta. “Mas só com alguém me segurando, né, mã?”. Marchar como um elefante pesado ele não sabe. E ele também não tem tromba, só nariz.

“Vem falar boa noite pro papai”. “Eu vou levar o lobo!”. O homem na cadeira giratória sente a aproximação do meio metro. Mãos e pés escondidos pelo azul do pijama recém herdado do irmão. Cabeça escondida até os olhos pelo chapéu de lobo mau. “Boa noite, papai”, ele diz, empinando o narizinho para enxergar por baixo da fantasia. Risos e beijoca doce depois, o pai responde: “Boa noite, seu cara de lobo!”. Para garantir os próximos risos, escuta de uma cara bem brava, incorporando a personagem: “boa noite, seeeu… careta de pipoca!”.

Plenitude

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O protetor solar infantil faz minhas mãos arderem porque cheiro de uva. Cheiro não, aroma, palavra pelo qual o Davi está perdidamente apaixonado.

Estranho lembrar isso em pleno mês de julho, mas esta tarde tivemos férias de verão no clube. Céu azul, sol ardente, filhos saudáveis brincando com água e areia. Até tomar um açaí nós arriscamos. Foi bom!

Vi o Pedro ter medo de descer pelo tobogã sem dar as mãos. Depois o vi subir pela mesma rampa com todo equilíbrio e coragem, “sem azuda!”. Ensinei-o sobre o perigo que é passar atrás das balanças, e dessa vez eu acho que ele registrou. Já abre as torneiras sozinho e, para meu estupefato orgulho, as fechas em seguida.

Vi o Davi ter vergonha de pedir um bolinho de lama às três meninas grandes que brincavam juntas. Depois o vi chegar com um deles na palma da mão e um sorriso largo no rosto. Brincou de pega-pega com novos amigos, correndo deles e de mim. Deu todo seu suor e depois disso ficou muito dócil aos meus limites.

Só não foi de verão o vento frio que começou a gelar as camisetinhas enlameadas… Antes das cinco já estavam cheirando a sabonete e exibindo aquela carinha glostora deliciosa.

Brincaram juntos de “siconde-conde” enquanto eu lia e a tarde caía.  Trouxeram-me folhas secas. Insistiram que eu as colocasse no cabelo. Despistei-os tirando meu elástico e deixando-me derreter pelos sorrisos encantados que surgem em seus rostinhos angelicais quando eu faço isso. E em seguida assisti suas gargalhadas nervosas diante da “mãe sem cara”.

Entramos no carro jantados com as galinhas e gratos pela companhia um do outro. Conversando comigo sobre as igrejas que quer conhecer, o Davi dormiu no caminho. O Pi chegou em casa bem acordado, lúcido a ponto de discutir no elevador com a vizinha que perguntou se ele também já iria dormir. Pegou no sono em sua caminha, com os pés de pelúcia do Tyrone sobre os olhinhos.

E eu já estou com saudade dos pescocinhos cheirosos de filho, dos sotaques argumentativos e dos neologismos, do jeito como me beijam e abraçam e de seus olhos brilhantes fincados nos meus. Plenitude.

 

Marta, Marta

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Lendo historinhas da Blíblia* antes dos meninos dormirem, detivemo-nos na passagem de Zaqueu (Lc 19).

Porque tinha tanta gente? Porque ele subiu na árvore? Porque ele era baixinho? Porque Jesus foi na casa dele? Porque ele desceu correndo?

Ah… Foi aí que eu me peguei respondendo por mim! Enumerei tudo o que faria antes de receber o Mestre em casa: essas roupas aqui para guardar, cama para arrumar (ainda, quase na hora de desarrumar de novo!), brinquedos para recolher, janelas para abrir bem, perfuminho de ambientes, um bolo delicioso no forno, quem me ajudaria com o suco?

A expressão impactada deles contrastou com minha expectativa de que brigariam para coar o suco de Jesus, assim como brigaram para coar seus próprios sucos horas antes.

Por quê? Foi o que o Davi me perguntou, verdadeiramente curioso. Por que você ia fazer tudo isso?

Como sempre, eu, reflexamente, comecei a responder. Ah, porque eu ia querer preparar tudo muito bem pra receber a visita de… Filhinho, o que você ia fazer se Jesus viesse aqui em casa?

Pedir pra ele trazer a mãe dele.

Engoli.

Pra gente poder brincar juntos. Se o pai dele viesse também, ia dar pra gente jogar um jogo bem legal, todo mundo junto.

Reengoli. Jesus, tão homem quanto meu marido, provavelmente nem perceberia mesmo a montanhinha de meias do avesso ali no canto. E poderia passar a visita toda sem se dar conta das manchas na toalha. Mas adoraria divertir-se espetando o Pula Pirata. (Tá bom, vai, montando um celeiro de Lego, que é um pouquinho mais legal). Ou apostando corrida com dois menininhos fofos e uma coleção de Hot Wheels.

Davi queria a companhia, a convivência com sua amada Maria (“que eu rezo todo dia de manhã no caminho da escola, né, mãe?”), queria sua companhia, aproveitar o tempo na presença da Sagrada Família. E, de brinde, em sua fala também me dizia que ama brincar com mães e pais em geral…

Acariciei a bochecha dum iluminado filho enquanto o outro pedia pra falar, palhacento:

Será que Jesus ia comer uma banana estragada?

Não, Pi, opinou rindo o irmão, ele ia comer só uma banana feita de amor…

Um pouco mais infantil, mas ainda surpreendente.

Aline, Aline, “tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas, porém uma só coisa é necessária…”**

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*OLESEN, C. “Minha primeira Bíblia: histórias da Bíblia para crianças”. Il: MAZALI, G. São Paulo: Ciranda Cultural, 2006.

**Lc 10, 41

Atemoia

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Primeiro, eu percebi a contração desnecessária dos músculos da minha testa. Em seguida, olhei no espelho retrovisor do carro e vi minha cara de má. Por quê?

Então, parada no sinal, respirei fundo e tirei a corcunda, e resolvi começar o exercício de reconhecer a positividade.

E não é que a luz do farol combinava direitinho com aquelas flores bem vermelhas e peludas da árvore exatamente atrás dela? Bonito! Bonitas todas as árvores, e no meu caminho são muitas.

Que interessante os muros das casas vizinhas comporem a cara da rua sem que haja alguma reunião municipal para isso, e os cachorros atravessarem na faixa de segurança (por vezes com mais responsabilidade que os pedestres). E aquele jardineiro descendo da escada, às oito da manhã, a que horas será que ele subiu?

Achei legal andar a pé do estacionamento até a academia e gostei de contar moedas para completar um real. Até a dor na perna esquerda me fez feliz por senti-la ativa.

Dei-me o direito de deixar o carro na vaga da vizinha por dez minutos; comemorei encontrar meu filho de cueca seca; passei batom violeta; abri a janela do quarto para a luz do dia animar meu marido.

Decidi comprar atemoia pela primeira vez e resolvi zerar a quilometragem do carro porque hoje me pareceu um bom dia para ver quanto ele está rendendo.

Pareceu também um bom dia para matricular as crianças no esporte e aproveitar a tarde arremessando-as na piscina de bolinhas do clube. O Davi corre com o polegar dos pés um pouquinho levantado e o Pi trança tanto as pernas ao correr, que poderia acabar dando meia volta. Eles dois babam e tem os dentes mais lindos do mundo. O eco da voz deles dentro do tubogã me faz sorrir inspirando e gosto da moldura que o capuz dá ao rostinho deles. São muito fraternos e proíbem injustiças da minha parte – o que hoje eu recebi com muita gratidão, porque de que me adianta ser injusta?

Não fui eu que fiz as uvas do nosso lanche estarem doces, nem fui eu que desenhei as sobrancelhas dos meninos. Não fui eu que me dei dois filhos homens, não fui eu que determinei a cota de sensibilidade à qual teria direito, não fui eu que graduei a ternura do sol desta tarde.

O que eu precisei foi lembrar que não sou simplesmente uma cara séria e um monte de tarefas a cumprir e que meu coração quer mais do que apenas cada coisa em seu lugar.

O vendedor de sonhos

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O vendedor de sonhos

Davi. Alex?nO Davi Alex é um menino adorável de 10 anos. O conheci na venda onde trabalha, uma lojinha simples, onde ele vende lápis coloridos. Não unicamente os coloridos, como ele mesmo ressalva, também os brancos e pretos.

Fui até lá porque precisava de lápis amarelos, e ele me apresentou uma cuidadosa variedade, que incluiu desde o bege até o rosa médio. Enfatizei que estava interessada mesmo nos amarelos e ele respondeu tranquilamente que sabia disso, e que aqueles dois ao lado eram rosa, mas estavam lá porque eram quase amarelos.

Muito satisfeita com meus bastões canário, ouro e limão, pedi quanto lhe devia e ele pensou, preenchendo o tempo com um rumor, com a boca torta e o indicador no queixo, me olhando de esgueio, até dizer: “zero”. “Puxa, são de graça?”, eu repliquei, eufórica. “Sim, porque hoje é o meu aniversário”. “Meus parabéns!”, soltei empolgada, ao mesmo tempo em que tomei sem perceber a liberdade de estalar-lhe um beijo na bochecha direita. Ele reagiu encabulado, porém não limpou a bochecha com as costas da mão, como algumas vezes já espero que faça meu filho mais velho.

Foi aí que me lembrei dele, e comentei com o aniversariante que meus filhos adoram festas de aniversário. Nessa hora, meu caçula, Pedro, chegou à venda, com cara de travesseiro e muito emocionado. Peguei-o no colo para me ajudar nas compras, mas ele não quis nada, apenas bolo de aniversário.

Então meu vendedor predileto disse que, se eu quisesse, poderia levar até minha casa o convite para a festa desta noite. Achei ótimo e, antes de me despedir, comentei que justamente as duas não cores que ele vende ali são as prediletas do meu outro filho, Davi. Ele sorriu largamente e disse que Davi também é seu nome. Encantada com as coincidências da vida, perguntei seu sobrenome.

Foi então que, pela primeira vez, ele, ainda com muita maturidade, demonstrou alguma dependência e pediu licença para ir até a cozinha descobrir. Esticou o pescoço e, apoiado no batente da porta, ainda com as perninhas para fora do ambiente, cochichou alguma coisa com seu silencioso pai. Retornou em seguida, dizendo: “Batício, meu nome é Davi Batício”.

Como os clientes caíssem na risada, ele retornou logo à cozinha, em tempo de dissolver o engano, e murmurou ao pai invisível que “isso deve estar errado, eles estão rindo muito”. E, de volta à venda, disse que seu real sobrenome é Alex, Davi Alex.

Recebi Davi Alex em casa, minutos mais tarde. Muito gentil, ele levou de presente para seu xará os lápis branco e preto. Eu queria muito que os dois se conhecessem, mas no único momento em que meu filho apareceu, meu convidado havia sumido. Tentei de todas as formas que os dois se encontrassem, mas ambos ficavam desconcertados demais quando isso estava prestes a acontecer e eu, rindo como uma adolescente, não conseguia promover evolução. Exceto por um instante, em que apertaram a mão um do outro, mas – talvez seja efeito do desconcerto – pareceu-me que Davi Alex deu duas esmagadas no nada enquanto cantarolava sorrindo.

Antes de se despedir, Davi Alex me contou que o bolo de sua festa seria de chocolate com muita cereja e, mais surpresa ainda, fiquei com as coincidências da vida, porque na atual temporada este é o sabor predileto do meu filho Davi.

Logo em seguida, ao cair da noite, levei meus dois filhos ao aniversário. O Pedro ficou ao meu redor, um tanto quanto desambientado, bem como nos sentimos quando… não somos os donos da brincadeira. O Davi sumiu assim que chegou o anfitrião, convidando para brincar de pula-pula na bola azul. Deve ter se entretido lá pra dentro, porque não mais o vi até a hora dos parabéns.  

Antes do bolo, porém, o Pedro foi bem servido com carne feita no forno a lenha e com janta. Claro, Davi Alex já está completando seu décimo aniversário, mas bem se lembra que é essa a sequência que as mães solicitam para os filhos pequenos. Só não foi muito feliz em chamar seu convidadinho de “o pequenininho”, enquanto falava comigo, pois isso despertou o senso de justiça do Pedro, que perdeu a compostura declarando que “pequenEninho, não!” ele é grande, e que até fez xixi no banheiro esta manhã.

Impasse facilmente resolvido, já que meninos de dez anos não criam caso com crianças de dois. Fomos à sala do bolo e, gentileza atrás de gentileza, Pedro pôde assoprar sua própria vela, ao lado do aniversariante da noite.

Só não sou capaz de identificar se esse menino fotografado deliciando-se com o bolo e cerejas é o Davi Alex ou se é meu filho… Talvez a câmera fotográfica tenha ficado confusa… ou tão comovida quanto eu pelas entusiasmadas palmas descompassadas que acompanharam os parabéns…

DeclAMAções

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Há alguns dias, emissões inequívocas vem escapando de seus “lábeus”.  Geralmente no carro, rompendo longo silêncio.

Comecei a observá-las com mais diversão no dia em que escutei, vindo do banco de trás, o CPF do pai cantarolado baixinho, continuamente.

No dia seguinte, brotou do silêncio absoluto em nossa volta para casa: “não quero pôr gasolina comum”.

No outro dia, observando alguma coisa em algum jardim do caminho, soltou: “regador não é mangueira”.

No outro, equilibrou o Cascão no braço do cadeirão e ordenou: “Fica aí dzi pé, sentadzinho!”.

Numa noite, afirmou: “Eu tenhu medu du iscuro, mas iscuro não existe”.

E na noite seguinte, com pai e irmão também no carro, perguntou: “puquê dzi noitsi a zentzi passia intêro?”. Pedimos três repetições. Continuamos não entendendo. Ele, exigindo uma resposta, gritou: “Pegunta pa mim!” Então o sexto sentido materno sussurrou no meu ouvido que se referia ao fato de estarmos ali família inteira.

Hoje eu tentava acordar o irmão para a tão esperada missa vespertina do Lava Pés, quando ele apareceu calçado, dizendo: “eu puis sandália, eu tô lindo”. Tentou um pouco solucionar a correia solta, irritou-se, silabou “GI – FI – ÇÔ!!!”, desistiu e veio até mim: “eu pidi azuda”.

Sandálias calçadas, desapareceu, fuçou onde não devia e, num arroubo de consciência, voltou dizendo: “eu não vou mecei em nada, eu só mecei na póita da casa”. Forçando naturalidade eu indaguei: “e você é adulto ou criança?”. Contrariado, prevendo o efeito da retórica da mamãe, assumiu com as exatas seguintes palavras: “Nem adulto, nem quiança. Sou um minino bávu e sátu”.

Porém, ingênuo quem realmente acreditou que ele não é criança. Como se classifica alguém que grita mais que o coral de idosas em quinta feira Santa para informar à Igreja toda que “o Bolêro tá icondido nu colai!”. Sendo que este mesmo alguém, minutos antes, tratou de ocultar-se embaixo do banco e embaraçar no colar colorido da mamãe braços e pernas do valente arqueiro…

Mas ele mesmo logo o admitiu, após a comunhão. Começou perguntando “o que você tá comendo?”, ao que eu, por reflexo, quase respondi “Jesus”. Só que, imaginando o desdobramento da conversa, que era acompanhada por toda a silente assembléia, optei por reproduzir a resposta que muito ouvi durante minha infância: “a bolachinha da paz”. “Ah. Também quero”. “Primeiro você precisa ter dez anos e fazer a primeira comunhão”. Como eu voltasse à posição de contrição a cada linha do diálogo, apesar das muitas risadinhas comunitárias – que eu não condeno –, ele resolveu calar. Apenas estendeu a mim os dois dedinhos magrelos, indicando a idade. Então redecidiu falar com energia: “Quiança não podzi comê bolacinha da Igueza, quiança podzi comê bolacinha da minha casa i assiti tevisão na minha casa i VDD, i í nu cólu e dá a mão”.

Criança pode tudo isso mesmo. E, nesse caso, até adulto pode rir como criança. E foi o que eu e muitos fiéis fizemos juntos.