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Angelus

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Acabaram de sair de casa. Um deles trajando o verde espantado da camisa que uma vez o Ademir da Guia assinou. O outro, vestindo uma camiseta em que se lê “Germany”, a casa da Oktoberfest, o destino de daqui a quatro horas.

Foram de trem, acordaram atrasados e perderam o primeiro. Disseram ter tomado café da manhã e o cheirinho de pão torrado me fez acreditar. Ficaram em pé, olhando minha cara amassada e despenteada, com sorrisos pacientes no rosto.

Nao quis pegar a máquina fotográfica no quarto, porque a noite com o pequeno exausto de tanto passear com os tios não foi assim muito lisa. Disse a eles que teria a foto na minha mente. Quem duvida?

Respirei fundo e, assim que tomei coragem, o sino da Igreja tocou, tambem ele decicido. Vamos rezar um Angelus? Hum hum, me esperaram chorar umas lágrimas encabuladas antes de conseguir começar, e repetimos juntos as mesmas palavras que declamavamos habitualmente anos (vários anos) atrás.

Segurei as duas mãos mais irmãs que tenho e vi um enroscar o dedo do outro, como quando ficavam de bem depois de brigar. Não só por isso, mas tenho certeza de que já fizeram as pazes para sempre.

Faça-se em nós segundo a Vossa palavra. Em nossas vidas, em nossas famílias que são uma só. O Verbo habita entre nós.

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Afirmacoes de (2a) lua de mel

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Suspiro: te amo

Sussurro: te amo

Sorrio: te amo

Declaro: te amo

Palavro: te amo

Declamo: te amo

Proclamo: te amo

Mastigo: te amo

Perigo: te amo

Bendigo: te amo

(Meu) DIGO: te amo!

Plenitude

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O protetor solar infantil faz minhas mãos arderem porque cheiro de uva. Cheiro não, aroma, palavra pelo qual o Davi está perdidamente apaixonado.

Estranho lembrar isso em pleno mês de julho, mas esta tarde tivemos férias de verão no clube. Céu azul, sol ardente, filhos saudáveis brincando com água e areia. Até tomar um açaí nós arriscamos. Foi bom!

Vi o Pedro ter medo de descer pelo tobogã sem dar as mãos. Depois o vi subir pela mesma rampa com todo equilíbrio e coragem, “sem azuda!”. Ensinei-o sobre o perigo que é passar atrás das balanças, e dessa vez eu acho que ele registrou. Já abre as torneiras sozinho e, para meu estupefato orgulho, as fechas em seguida.

Vi o Davi ter vergonha de pedir um bolinho de lama às três meninas grandes que brincavam juntas. Depois o vi chegar com um deles na palma da mão e um sorriso largo no rosto. Brincou de pega-pega com novos amigos, correndo deles e de mim. Deu todo seu suor e depois disso ficou muito dócil aos meus limites.

Só não foi de verão o vento frio que começou a gelar as camisetinhas enlameadas… Antes das cinco já estavam cheirando a sabonete e exibindo aquela carinha glostora deliciosa.

Brincaram juntos de “siconde-conde” enquanto eu lia e a tarde caía.  Trouxeram-me folhas secas. Insistiram que eu as colocasse no cabelo. Despistei-os tirando meu elástico e deixando-me derreter pelos sorrisos encantados que surgem em seus rostinhos angelicais quando eu faço isso. E em seguida assisti suas gargalhadas nervosas diante da “mãe sem cara”.

Entramos no carro jantados com as galinhas e gratos pela companhia um do outro. Conversando comigo sobre as igrejas que quer conhecer, o Davi dormiu no caminho. O Pi chegou em casa bem acordado, lúcido a ponto de discutir no elevador com a vizinha que perguntou se ele também já iria dormir. Pegou no sono em sua caminha, com os pés de pelúcia do Tyrone sobre os olhinhos.

E eu já estou com saudade dos pescocinhos cheirosos de filho, dos sotaques argumentativos e dos neologismos, do jeito como me beijam e abraçam e de seus olhos brilhantes fincados nos meus. Plenitude.

 

Canção, novela… romance.

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Ouvir rádio hoje foi mais interessante. Algumas declarações de amor, algumas lamentações de amor, muitas músicas de bailinho da vassoura. A esposa que deixou um bilhete surpresa para o marido dentro do carro, já às cinco da manhã; o radialista que despertou sua companheira com um beijo e um enigma.

Na academia só para mulheres foi instigante observar o movimento das conversas: quando alguém, apaixonada, começava a contar sobre os planos para mais tarde, muitas outras revelavam suas ideias, de românticas a picantes. Quando alguém, frustrada, reclamava que o marido ia jogar bola esta noite, muitas outras entortavam a boca e revelavam suas próprias decepções, de esquecimentos a presentes de grego. As mesmas interlocutoras teceriam conversas muito diferentes, dependendo do estímulo.

Há algumas semanas observei, compenetrada, dois casais durante a missa. Um deles evidentemente de namorados: o rapaz acariciava o ombro da companheira, a abraçava e falava em seu ouvido, mesmo que ela tentasse guardar silêncio ou ficar ajoelhada por um pouco mais de tempo que ele. A expressão corporal da moça, que eu só vi de costas, me disse que ela queria um pouco mais de introspecção e menos paparico. Não deixou de ser receptiva ao namorado, mas me pergunto: porque será que eu li seu pedido por oxigênio e ele não leu? Supus que, dentro de alguns anos, senão meses, senão minutos… a paciência da moça poderá se acabar. E a por vezes inoportuna ternura do rapaz poderá ressentir-se disso.

O outro casal revezava passeinhos, balangadas e passadinhas de fralda no rosto de seu primeiro bebê fofucho. Embasbacados, os dois, com aquela criancinha amada. Mas, enquanto o pai babava litros, a mãe parecia querer um pouco de ordem e de funcionalidade. Sacava os objetos de dentro da bolsa sem precisar olhar para as mãos, arregalava os olhos quando o pai sacolejava o bebê de um jeito que lhe parecesse menos conveniente. Mas ele não soube disso, porque não olhou para ela, não a percebeu; naquela cena só tinha olhos e braços para a filha. Tanto que quando a menininha passou para o colo da mãe, tão entusiasmado abaixou-se para beijar sua barriguinha, que bateu com força a cabeça no nariz da esposa, que, com as mãos ocupadas, nem pode segurar a dor que seus olhos crispados exprimiram. O marido nem percebeu: não pediu desculpas, não a acariciou, não a pegou no colo. Fiquei imaginando que, se isto ocorresse há algumas semanas, ou meses, ou anos, a mulher – que ainda viria a carregar no colo a filha que carregava no ventre, ou que ainda viria a carregar no ventre a filha que carregava na alma – poderia estar sendo consolada, cuidada, admirada e mimada pelo seu companheiro babão.

Avançando ou retrocedendo a fita de nossos discursos, manipulando o tempo do filme de nossos momentos, tentemos perceber nós mesmos o que fazemos com nossos amores e como tratamos quem mais nos importa. Talvez valha a pena recuperar os episódios iniciais de nossas novelas, para inspirar próximos capítulos instigantes e construir o tão desejado final feliz.

Atemoia

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Primeiro, eu percebi a contração desnecessária dos músculos da minha testa. Em seguida, olhei no espelho retrovisor do carro e vi minha cara de má. Por quê?

Então, parada no sinal, respirei fundo e tirei a corcunda, e resolvi começar o exercício de reconhecer a positividade.

E não é que a luz do farol combinava direitinho com aquelas flores bem vermelhas e peludas da árvore exatamente atrás dela? Bonito! Bonitas todas as árvores, e no meu caminho são muitas.

Que interessante os muros das casas vizinhas comporem a cara da rua sem que haja alguma reunião municipal para isso, e os cachorros atravessarem na faixa de segurança (por vezes com mais responsabilidade que os pedestres). E aquele jardineiro descendo da escada, às oito da manhã, a que horas será que ele subiu?

Achei legal andar a pé do estacionamento até a academia e gostei de contar moedas para completar um real. Até a dor na perna esquerda me fez feliz por senti-la ativa.

Dei-me o direito de deixar o carro na vaga da vizinha por dez minutos; comemorei encontrar meu filho de cueca seca; passei batom violeta; abri a janela do quarto para a luz do dia animar meu marido.

Decidi comprar atemoia pela primeira vez e resolvi zerar a quilometragem do carro porque hoje me pareceu um bom dia para ver quanto ele está rendendo.

Pareceu também um bom dia para matricular as crianças no esporte e aproveitar a tarde arremessando-as na piscina de bolinhas do clube. O Davi corre com o polegar dos pés um pouquinho levantado e o Pi trança tanto as pernas ao correr, que poderia acabar dando meia volta. Eles dois babam e tem os dentes mais lindos do mundo. O eco da voz deles dentro do tubogã me faz sorrir inspirando e gosto da moldura que o capuz dá ao rostinho deles. São muito fraternos e proíbem injustiças da minha parte – o que hoje eu recebi com muita gratidão, porque de que me adianta ser injusta?

Não fui eu que fiz as uvas do nosso lanche estarem doces, nem fui eu que desenhei as sobrancelhas dos meninos. Não fui eu que me dei dois filhos homens, não fui eu que determinei a cota de sensibilidade à qual teria direito, não fui eu que graduei a ternura do sol desta tarde.

O que eu precisei foi lembrar que não sou simplesmente uma cara séria e um monte de tarefas a cumprir e que meu coração quer mais do que apenas cada coisa em seu lugar.

O vendedor de sonhos

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O vendedor de sonhos

Davi. Alex?nO Davi Alex é um menino adorável de 10 anos. O conheci na venda onde trabalha, uma lojinha simples, onde ele vende lápis coloridos. Não unicamente os coloridos, como ele mesmo ressalva, também os brancos e pretos.

Fui até lá porque precisava de lápis amarelos, e ele me apresentou uma cuidadosa variedade, que incluiu desde o bege até o rosa médio. Enfatizei que estava interessada mesmo nos amarelos e ele respondeu tranquilamente que sabia disso, e que aqueles dois ao lado eram rosa, mas estavam lá porque eram quase amarelos.

Muito satisfeita com meus bastões canário, ouro e limão, pedi quanto lhe devia e ele pensou, preenchendo o tempo com um rumor, com a boca torta e o indicador no queixo, me olhando de esgueio, até dizer: “zero”. “Puxa, são de graça?”, eu repliquei, eufórica. “Sim, porque hoje é o meu aniversário”. “Meus parabéns!”, soltei empolgada, ao mesmo tempo em que tomei sem perceber a liberdade de estalar-lhe um beijo na bochecha direita. Ele reagiu encabulado, porém não limpou a bochecha com as costas da mão, como algumas vezes já espero que faça meu filho mais velho.

Foi aí que me lembrei dele, e comentei com o aniversariante que meus filhos adoram festas de aniversário. Nessa hora, meu caçula, Pedro, chegou à venda, com cara de travesseiro e muito emocionado. Peguei-o no colo para me ajudar nas compras, mas ele não quis nada, apenas bolo de aniversário.

Então meu vendedor predileto disse que, se eu quisesse, poderia levar até minha casa o convite para a festa desta noite. Achei ótimo e, antes de me despedir, comentei que justamente as duas não cores que ele vende ali são as prediletas do meu outro filho, Davi. Ele sorriu largamente e disse que Davi também é seu nome. Encantada com as coincidências da vida, perguntei seu sobrenome.

Foi então que, pela primeira vez, ele, ainda com muita maturidade, demonstrou alguma dependência e pediu licença para ir até a cozinha descobrir. Esticou o pescoço e, apoiado no batente da porta, ainda com as perninhas para fora do ambiente, cochichou alguma coisa com seu silencioso pai. Retornou em seguida, dizendo: “Batício, meu nome é Davi Batício”.

Como os clientes caíssem na risada, ele retornou logo à cozinha, em tempo de dissolver o engano, e murmurou ao pai invisível que “isso deve estar errado, eles estão rindo muito”. E, de volta à venda, disse que seu real sobrenome é Alex, Davi Alex.

Recebi Davi Alex em casa, minutos mais tarde. Muito gentil, ele levou de presente para seu xará os lápis branco e preto. Eu queria muito que os dois se conhecessem, mas no único momento em que meu filho apareceu, meu convidado havia sumido. Tentei de todas as formas que os dois se encontrassem, mas ambos ficavam desconcertados demais quando isso estava prestes a acontecer e eu, rindo como uma adolescente, não conseguia promover evolução. Exceto por um instante, em que apertaram a mão um do outro, mas – talvez seja efeito do desconcerto – pareceu-me que Davi Alex deu duas esmagadas no nada enquanto cantarolava sorrindo.

Antes de se despedir, Davi Alex me contou que o bolo de sua festa seria de chocolate com muita cereja e, mais surpresa ainda, fiquei com as coincidências da vida, porque na atual temporada este é o sabor predileto do meu filho Davi.

Logo em seguida, ao cair da noite, levei meus dois filhos ao aniversário. O Pedro ficou ao meu redor, um tanto quanto desambientado, bem como nos sentimos quando… não somos os donos da brincadeira. O Davi sumiu assim que chegou o anfitrião, convidando para brincar de pula-pula na bola azul. Deve ter se entretido lá pra dentro, porque não mais o vi até a hora dos parabéns.  

Antes do bolo, porém, o Pedro foi bem servido com carne feita no forno a lenha e com janta. Claro, Davi Alex já está completando seu décimo aniversário, mas bem se lembra que é essa a sequência que as mães solicitam para os filhos pequenos. Só não foi muito feliz em chamar seu convidadinho de “o pequenininho”, enquanto falava comigo, pois isso despertou o senso de justiça do Pedro, que perdeu a compostura declarando que “pequenEninho, não!” ele é grande, e que até fez xixi no banheiro esta manhã.

Impasse facilmente resolvido, já que meninos de dez anos não criam caso com crianças de dois. Fomos à sala do bolo e, gentileza atrás de gentileza, Pedro pôde assoprar sua própria vela, ao lado do aniversariante da noite.

Só não sou capaz de identificar se esse menino fotografado deliciando-se com o bolo e cerejas é o Davi Alex ou se é meu filho… Talvez a câmera fotográfica tenha ficado confusa… ou tão comovida quanto eu pelas entusiasmadas palmas descompassadas que acompanharam os parabéns…

Segredo

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Com cinquenta e quatro meses, dezoito mil e seiscentos gramas, cento e sete centímetros, ele queria subir numa pilha de dois pufes. Avisado sobre o perigo, esperou-me terminar de guardar as roupas nas gavetas apertadas para segurar minha mão.

Unhinhas compridas e sujas apertando meus dedos, sorriso emoldurado por um sujo de chá com mel: conseguiu.

Lá em cima, ficou maior que eu. Abraçamo-nos. Suadinho antes do banho, bafinho de tosse e infância.

Contei pra ele, ao pé do ouvido, que daqui a muitos anos ele vai ser mesmo desse tamanho e vamos dançar juntos quando ele terminar a escola de adultos. E que nesse dia eu vou dizer que ele era meu bebê, meu menino, e que sempre morou no meu coração. E vou lembrá-lo do tempo em que eu cortava suas unhas.

Perguntou-me preocupado se quando ele crescer eu não vou mais poder cortar as unhas dele. Respondi que vou poder cortar, sim, se ele quiser. Sorriu com seus muitos cílios e pequenos dentes.

Cantarolei uma valsa, ficamos dançando no lugar, abraçados sem pressa. Segredou quente, boquinha colada na minha orelha: “eu te amo”. Ri choramingando: “também te amo muito, pra sempre”.