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Corre…dor

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Caminhando rápido em direção ao meu antigo quarto, bati os olhos primeiro no “museu da família”, a parede forrada de fotos que contam lindas histórias. Meus avós sorrindo, nós cinco no mesmo sofá, meu noivo, meu esposo, meu barrigão, meus bebês. E em seguida, sem querer, bati os olhos no chão do corredor.

E me lembrei de quando ali havia carpete, e batia sol vindo pela janela do jardim interno, por entre as altas árvores plantadas na terra que eu comia desde os sonhos da minha mãe gestante.

E me lembrei da cadeira de vime, que amamentou a mim e a meus irmãos quando a vida ainda tinha cheiro de calma.  

E dos cachos loiros esvoaçantes do meu irmãozinho que resolveu dar uma de cabeleireiro, brincando sentado no chão sobre suas pernas gorduchas.

E dos exuberantes celofanes dos ovos de Páscoa nas portas dos nossos quartos – nos quais tropeçávamos surpresos se acordássemos distraídos -, emendados em pegadinhas de coelho feitas com talco.

E do medo que eu sentia quando brincávamos de terror com as vizinhas, e passar por ali sem olhar para trás era o desafio maior.

E das idas e vindas sistemáticas da escrivaninha, no quarto, para o armário de guloseimas, na cozinha, enquanto fazia minhas infindáveis e calóricas tarefas.

E do som dos primeiros saltos, quando, com gosto de batom, eu caminhava carregando um presente de aniversário.  

E de uma florzinha enfeitando o guia do bixo, no dia em que entrei na faculdade.

E do alívio de chegar em casa após muito trabalhar, carregada, com prontuários e artigos dentro da bolsa que eu largava ali, em qualquer lugar.

E das outras coisas que aconteceram depois, de nove ou dez anos para cá, que não me conformo não terem sido ontem.

Agora ali o Davi pula pela janela, o Pedro derrama no chão seus MM’s, os dois correm atrás da gata. Eu tento descer saltitando as escadas que não mais existem e, para falar a verdade, enxergo ainda no carpete ausente os pés úmidos dum sapeca saído do banho, que hoje calça quarenta e de quem as pegadas marcam a neve, não mais o solo tropical. E escuto esmurrar minha porta mãos que hoje não dão conta de qualquer provocação, e só fazem afagar os sobrinhos.

Ando por ali carregando, semana a semana, sacolas e sacolas de coisas. Por apenas mais algumas semanas. Mas para sempre posso carregar as lembranças que me trazem esse corredor e tantos outros caminhos…

 

Para você, mãe, por tantas boas lembranças e pela coragem de novos caminhos.

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Verde até o último fio de cabelo

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Então, como a tarde está linda e eu cansei da irritação que me causa uma pasta comunitária de documentos, saí com os meninos para comprar novas pastas no bazar.

O Pedro quis a verde, mas não menciono isso pelo fato de que a cor tem sido sua preferência nacional e o critério para escolher o giz de cera, a gelatina, as roupas, sapatos, brinquedos e, inclusive, a cor do cabelo. (Outro dia, no espelhão do elevador, com mãe e pai resmungando os cabelos brancos, o Davi declarou que estamos ficando velhos. E eu, prontamente, disse que não, cabelo branco é uma coisa normal, todo mundo tem, até o Pedro, que é bem novo. E antes que ele pudesse soltar sua risada esperta, o Pi vociferou: “meu cabelo não-é-ban-cô! É vei-djí!!”.)

Menciono que o Pi escolheu a pasta verde para que todos visualizem esta réplica do Piu-Piu sambando pelas calçadas arrebentadas e defecadas dos arredores de casa com uma pasta-aba-elástico-verde-bandeira defronte seu tronquinho. E mão suada obediente dada à mãe.

O Davi aceitou devolver a sua pasta transparente para a sacola quando impus tal condição para continuarmos o passeio. Ele queria atravessar a rua, para chegar onde “nunca fui na vida”. Sei. O bom foi que o caminhão das frutas meio que quebrou nessa hora e, enquanto o motorista rastejava de costas no asfalto para resolver a questão, tivemos tempo de seguir o som do “morango vermelhinho barato, barato”. Compramos. “Obrigado, mamãe, por ter comprado morango vermelhinho pra mim”.

Daí, fiz milk shake pra um, o outro preferiu in natura. Kalaro que eu quis tudo. E eis que, dada a primeira mordida no morango vermelhinho, t.o.d.o.s os pelos do meu braço levantaram vôo. Azedo. O Pi riu da minha careta. Com os olhos cheios de lágrimas mostrei o braço e ele, de boca aberta, disse: “Ah. Que pena…”. O Davi ficou impressionado com a quantidade de pelos que tenho – e eu tinha esquecido que é mesmo impressionante. Quase tão impressionante quanto a quantia de cabelos brancos…

Com bigode de milk shake, o Pi pediu colo. Peguei-o. “Você é meu nenezinho?”. “Não, sô u Pêdu Gebélli”. Mais lágrimas nos meus olhos, mas agora não por conta do azedo, e sim do doce extremo. “Vussê ta fiíz?”, perguntou meu pequeno, com olhos espremidos, nariz franzido, sorriso exagerado. Beijei seu cabelo verde até não poder mais e respondi que sim.

Se ele é o Pedro Gerbelli, está explicada a cor preferida.

Mais um ano que se passa

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Nesta tarde de sol quente,

encomendada de presente,

a quem merece imensamente,

o privilégio a gente sente:

nós duas e nossos meninos,

passeando pelo condomínio,

sentimento do mais genuíno,

uma declaração eu assino.  

Que os dois pares de olhinhos abstêmios não me vissem, mas precisei pôr um dedo de Coca Cola num copinho descartável. Engoli com sofreguidão. Quase engasguei, o nariz coçou, os olhos, envesgando, lacrimejaram. Há dezoito ou vinte anos meu organismo respondia mais suavemente a essa solução de cafeína, gás carbônico e pó de pirlimpimpim – ou o que quer que fosse – e eu ria de chorar, gargalhava de rolar e enchia outro copo. Numa noite de janeiro, linda como a de hoje.

Naquele episódio, além da alegria, o sono certamente contribuía para o espetáculo. Mas esta noite, passadas duas décadas, o sono ficou mais evidente na geração seguinte. Davi cantarolava com o queixo apoiado dentro do prato sobre uma rodela de calabresa. A madrinha aniversariante, deleitando-se ao som de um afinadinho “Smoke on the water”, selecionava histórias para contar aos nossos três pequenos. Os dois mais elétricos pulavam nos assentos, sobre pedacinhos de mussarela e papéis de Sonho de Valsa. O terceiro rendia-se, deitado em duas cadeiras.

Numa linda noite do final de janeiro, como hoje, minha vida mudou. Uns nove quilos atrás, uns nove anos mais leve, eu conhecia o homem da minha vida. Naquela noite, a vontade de nunca mais ir embora usava como desculpas a folga do domingo e a certeza da amizade. Por muitos meses, alguns anos, nossos maridos formaram conosco um quarteto inseparável. Hoje estiveram cuidando de seus assuntos, dando a nós a tremenda oportunidade de curtirmos uma à outra e de detectarmos, muitíssimo satisfeitas, que os filhos já permitem que sentemos juntas e em paz, enquanto se afundam por si sós num mar de dinossauros sem braço, carrinhos sem roda e bolos sem mais nenhuma cereja.

Quanto à vontade de não mais ir embora, foi transmitida geneticamente aos estômagos do meu par de meninos: um deles reclamando com premência o presente que há algumas horas entregara à madrinha – um anel tão lindo quanto bijouteirento, cujo brilho prateado conquistou-o definitivamente na vitrina do bazar. O outro, comendo o que lhe oferecessem, rindo até dos escorregões, tentando argumentar sobre lua e estrelas.

Não é apenas por encerrar as férias. Não é apenas por ser em Janeiro-de-Belas-Noites. É por ser a comemoração do nascimento de uma grande amiga. Uma amiga que batizou-se no colo de minha mãe, e no colo de quem batizou-se meu filho. Uma amiga com quem compartilhei, no altar, ouvindo a mais linda das Ave Marias, olhares a Nossa Senhora da Assunção. E também, entregando nossas perdas e nossos ganhos, nossas dores e nossas gratidões, compartilhei outro dia mesmo olhares a Nossa Senhora da Boa Viagem rodeada por cavalos, cavaleiros e pelas bandeirinhas que nossos meninos agitavam ao som do Hino e de quase axés.  

Nesta noite – não há trinta anos, quando meus pais me levavam para comer gelatininhas multicoloridas e cantar parabéns em quentes tardes de janeiro –, nesta precisa noite, dirigi pela Anchieta levando meus filhos para casa depois de abusar do horário, e escutei Ira tocar no rádio. “Mais um ano que se passa… envelheço” – eu também. “Essa vida é jogo rápido”. É sim. Um jogo que dá muito gosto jogar.   

Escrito hoje. Para a Moira.

Pendurada num cipó

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Desde a madrugada senti palpitações. Talvez porque acordaria cedo com hora marcada depois de muito tempo de acasos. Talvez por tantos outros quês.

A respiração curta, muitos suspiros, nuvens no cérebro, uma calma ensaiada. Vivi as primeiras horas da manhã na expectativa. A questão não era o Davi em seu primeiro dia de aula. A questão eram os meus certificados: escolhi bem a escola? Preparei bem a criança? Entendi bem qual deve ser minha postura na adaptação? Fiz bem em matriculá-lo neste momento? E a derradeira: sou uma boa mãe?

Estudante uniformizado pronto para foto. Tentou um sorriso, mas espelhou minha testa crispada. Tentou sem sucesso alinhar as sobrancelhas paralelas.

As primeiras lágrimas forraram meus olhos quando vi de relance o horário no relógio do carro. 9:37h. foi a hora de seu nascimento. Isso dava algum número exato de dias, que alguém poderia calcular. Alguém – não eu tentando me lembrar o que deveria fazer diante do farol verde.

E um ar trêmulo de orgulho entrou na antessala de meus pulmões. Todos esses anos e meu bichinho criado artesanalmente. Orgânico. Sem aditivos. Taí.  Consegui, aos trancos e tropeços. Feito.

Chegando à escola pus-me a ler para o Davi a faixa de boas vindas aos alunos. Em voz alta. E trôpega. Outra vez aquele vazamento sobre a córnea. Seria uma telha palpebral quebrada?

Mas deu tudo muito certo. Fiquei ali sentada fingindo que lia enquanto meu independente filho subiu de mochila nas costas e mãos dadas com a professora para arrumar a escrivaninha de sua república no interior do estado. Não, não! Isso será só daqui a uns 14 anos. Hoje ele foi a cem metros de mim brincar de Corre Cotia. Mas uma parte minha queria que fosse de verdade na casa da tia. Ou no cipó da casa da avó. E só.

Observei, no trânsito dos bastidores de uma escola séria, que há problemas muito mais decisivos do que minha curiosidade quanto ao tipo sanguíneo da professora. E que não tenho com que me preocupar. Ele está se divertindo, interessado no mundo novo cujo portal acabou de cruzar.

Quando reaparece, meia hora depois do combinado – e reconheço tão nitidamente mais uma semelhança com o pai! –, arregalo os olhos de orgulho e saudade. Aquele sorrisinho ao lado do qual estalo um beijo é uma resposta a muitas perguntas.

Dirijo para casa ouvindo a voz doce dar algumas notícias interessantes e cuidando para não iniciar nenhum interrogatório. Fez uma amiga. Tem duas professoras. Não sabe nenhum nome. Quer voltar para a escola. Amanhã não. Hoje.

Mando uma mensagem de texto aliviada, alegre e agradecida para o marido. Ele responde dizendo que tem orgulho de todos nós, até de mim. Assino – a lápis, como sempre – alguns certificados e sinto a elevação, a queda e o looping de uma emoção fantástica, uma sensação de missão cumprida, de gratidão. E uma exaustão enorme, que momentos depois me faz sonhar capotada entre Pedro, Davi, Cebolinha e Woody.

Mea

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Ah, a culpa…Vem quando falta verde na refeição que preparei, quando nego um pirulito – só hoje, só um – , quando suspiro de preguiça antes de dar o colo ao filho que pede, quando deixo de ligar para o aniversariante do dia, quando vou dobrar as roupas ao invés de sentar no sofá ao lado do marido, quando acumulo roupas sem dobrar, quando não falo o que deveria ser dito, quando falo umas verdades, quando uso um tempo pra mim, quando uso mal o tempo que tenho, quando atraso, quando desisto, quando escolho mal, quando priorizo errado, quando como demais, quando julgo, quando durmo sem rezar, quando adio, quando dou banho correndo, quando deixo de regar as plantas, quando compro bijouteria demais. (Aliás, contei? Uma pulseirinha vermelha linda, com umas tabuletinhas dos 10 mandamentos: de um lado o numeral, do outro o preceito escrito. Haha, falando em culpa , veio bem a calhar. Então, o Davi pegou pra olhar, achou linda, e disse que adorou as moedinhas com os números “humanos”, hahaha.)

Então, a culpa…

Ah, sou humana, vai. Se até os números são…

Desmame

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Ontem no banho minha garganta foi invadida novamente por certo nó que há mais de quatro anos eu engoli uma vez.

No final da minha primeira gestação resolvi verificar se havia algum colostro. Mesmo sabendo que aquilo não queria dizer nada, não devia nem ao menos ser feito, não achei colostro algum e lá estava uma garganta amarrada, num pescoço auto-exigente e ansioso, num corpo determinado a bem amamentar.

Depois disso muitas águas rolaram (a amniótica, a que o marido trazia para aplacar a sede avassaladora do amamentar, a de banhos roubados e a de banhos merecidos, ao final de dias mais longos do que eu supunha aguentar).  

Outros muitos nós vieram. Um desatou em mastite, logo aos doze dias de maternidade. Tantos e tantos nós desataram em prantos. Um ano e quatro meses depois, quando meu bebê virou menino e começou a andar, ainda não queria desmamá-lo. Sentia-me trapaceando, burlando a orientação de que a aquisição da marcha é um momento muito propício para o desmame. Mas prossegui. Amamentei-o por um ano e sete meses, quando me descobri grávida do segundo filho e – tonta e enjoada – precisei me render à evidência de que gestar e amamentar simultaneamente era mais do que o meu corpo podia.

Numa bela noite – bela mesmo! – deitei ao lado do Davi em seu colchão, à meia luz, e comecei a cantar para fazê-lo dormir. Sem amamentar. Aos primeiros acordes de “boi, boi, boi” ouvi sua voz doce pontuando para os botões do seu pijaminha: “bô!”. (Devia ser algo como um resumo para: “Botõezinhos do meu pijama, preciso dar uma notícia a vocês: acabou o leite da mamãe. Agora o Davi dorme à noite sem mamar, do mesmo jeito que dorme à tarde. Boa noite pra vocês”). Suprimi um nó para a garganta continuar cantando, e ele dormiu como um anjo, até o amanhecer. Um anjinho desmamado que, naquela madrugada, decidiu parar de acordar.  Por muitos meses agradeci por, na noite anterior, não ter sabido que o amamentava pela última vez. Seria muita emoção. 

Na segunda gestação não verifiquei colostro algum. O Pedro nasceu na cama em que foi concebido, veio imediatamente para o meu colo e mamou por cinquenta minutos. Sua amamentação não foi livre de nós. Aliás, nunca estive tão embaraçada e emaranhada em toda minha vida como naquela fase em que meus dois filhos eram bebês. Mas amamentar pela segunda vez foi ainda melhor, tão bom que eu decidi que não teria pressa para o desmame, andasse ou não meu homenzinho. O Pedro começou a andar com treze meses, mamou por vinte e dois, e parou há um. 

Desmamá-lo foi uma decisão muito ambivalente. Há algum tempo ele vinha mamando apenas a cada dois ou três dias. Certa noite viu o irmão deitar em sua cama aconchegante e pulou no berço, enroscando-se confortável. Esqueceu-se de mamar. Cantei para eles, esperei adormecerem, e quando saí do quarto deixei minha alma chorar de orgulho, alegria e saudade.

Mamou algumas vezes depois disso, até que num anoitecer comentei, sem saber ao certo onde queria chegar: “sabe filhinho, o peito da mamãe não tá fazendo mais muito leite, porque você já tem dente, já sabe comer muitas coisas gostosas, está crescendo, igual o Davi.” Mais uma vez encorajado pelo exemplo do irmão, ele pegou no sono e nunca mais mamou. Agradeço novamente por não ter sabido qual foi a última mamada dele e por não precisar me despedir.

As semanas passaram e no banho de ontem, quando, sem pensar, fiz uma expressão, o leite não jorrou – pela primeira vez em quatro anos. Fui tomada por um misto de incredulidade e decepção. Engoli com força o nó então surgido e senti um gosto terno e maduro, real e satisfeito.

Esta manhã, por acaso, o Davi me pediu que desse de mamar para o Pedro, “porque ele parece um porquinho mamando e eu quero ver”. E eu pude sorrir serena e responder que ele não mama mais. Mas que veríamos juntos umas fotos dos meus dois porquinhos mamando.

Demorei uns minutos para ir atrás das fotos. Com a sensação de missão cumprida, fiquei ali sentada, na cadeira de balanço que tanto me embalou no colo dos meus bebês. Em silêncio e alegria.

“Fiz calar e sossegar a minha alma.

Ela está em grande paz dentro de mim

Qual criança bem tranqüila, amamentada

No regaço acolhedor de sua mãe.” (Salmo 130)