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Caracóis

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Caracóis dourados reclinaram no meu ombro logo após nosso encontro.

Negros caracóis aceitaram meu beijinho, mas mantiveram a distância segura que costumam praticar.

Caracóis dourados pulularam rindo com meus filhos, emolduraram sorrisos diante de minhas provocações.

Negros caracóis trepidaram, ambivalentes, no chacoalhar de minhas pernas.

Caracóis dourados adormeceram falando comigo, partilhando um tão honroso passeio vespertino.

Negros caracóis, depois de transpassarem meus olhos com toda sede que têm, finalmente confiaram na minha voz e penderam, transpirando, na curva resistente do meu braço.

Caracóis dourados despertaram chamando meu nome.

Negros caracóis de mim correram ao acordar.

Caracóis dourados fugiram de meus dedos e, sapecas, afirmaram querer ficar bagunçados.

Negros caracóis a mim sorriram cúmplices na despedida afetuosa.

Não tenho caracóis. Mas ontem tive.

Matinal

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Passinhos descalços para perto.
P: “Mamãe?”
Continuei de olhos fechados, imóvel, encolhida na minicama. (Havia ido parar ali para terminar minha noite de sono, já que um corpinho mexelento e de pés gelados tinha ocupado boa parte da minha cama cedo demais.)
“Ela tá dormindo, Davi.”
“Então fala mais alto.”
“Mamãae?”
Permaneci parada.
“Mamãaae?”
A voz dele ainda estava bem baixa, dava para disfarçar.
“Ela não acorda, disse sussurrado, dividindo o achado com o irmão. Chama você.”
“Mamãe?” – outra cor de voz invocou.
Inspirei sonoro, foi minha forma de segurar o sorriso que a boca queria fazer.
“Mamãe, bom dia” – já se preparava para iniciar a lista de pedidos de autorização (a gente pode ver televisão? A gente pode jogar no computador?), mas parou diante da minha imobilidade.
Passos duros para longe. Estava atenta ao divertido movimento dos dois, decidindo se e como me acordar para começarem a parte do dia que requer a autorização parental. Acho que cochilei. Até que os ouvi brincando e discutindo as diferenças dos amigos da escola.
“Vai chamar a mamãe e pega meu copo d’água”, ouvi com estranheza a ordem dominadora de um igual ao igual menor. A autoridade de irmão mais velho também já fora inquestionável no meu tempo de criança. Não dura para sempre.
Passinhos para perto.
“É… mamãe?”
Não respondi.
“A gente pode jogar no computador?”
Sem resposta, respirou fundo. Devia estar esticado na pontinha dos pés, espiando minha expressão do rosto, mas segurei os músculos e a curiosidade parados.
Massageou meu ombro coberto por seu lençolzinho infantil. Não reagi, massageou com mais vigor, mãozinhas delicadas.
“Primeiro tem que ir no banheiro, é?”, inferiu, experiente, e foi passar a informação.
“Primeiro tem que ir no banheiro.”
“Cadê a minha água?”
“Ah, esqueci.”
“Então pega, né?!”, não perdoou o subchefe. Voltaram os dois para o quarto.
“Chama ela, Pi.”
“Mamãe?”, tentou novamente, tímido.
Senti o silêncio ao meu lado, respirando pensativo. Imaginei a cena: cabelos despenteados, rostinhos remelentos, trocando olhares.
“Ela não escuta”.
“Mais alto, então!”, sussurro ordenante.
“Mas aí ela vai acordar!”
“A gente quer que ela acorde”.
Foi difícil segurar o riso. Lembrei de uma noite dessas, em que o pequeno gargalhou dormindo entre mim e o pai, num final de madrugada. Gargalhei eu, de olhos fechados.
“Tá rindo!”, surpreendeu-se divertido. “Tá dormindo rindo!”
O maior deve ter vindo espiar, mais de perto. Intrigados, continuaram falando, vozinhas matinais, e eu ria sempre que preciso fosse.
Ao perceber meu bom humor, relaxaram, um subindo em mim e o outro abrindo meu olho direito com os dedinhos frios.
Fim do teatro. Fim do descanso.

Empatia

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O sol ardido cortava o ar denso do início de tarde de inversão térmica. Os meninos dormiam no carro, sombreado graças ao guarda-chuva que eu segurava aberto sobre nossas cabeças. Dentro era bem mais fresco do que fora.
A fila de espera no restaurante lotado garantiu a eles bons minutos de soninho, mas, para a felicidade da fome, nossa mesa vagou e precisaram ser acordados.
Doeu. Arderam os olhos, doeram as pernas, queimaram os estômagos. Nada parecia justo exceto esticar-se e dormir um pouco mais. Arrastaram-se pelo restaurante lotado e acumularam-se sobre uma mesma cadeira, disputada a briga. Irritados, sonados, famintos, contrariados, impacientes.
Se o mais velho logo encontrou os dedinhos para chupar e acalmou-se, olhos semicerrados, o mais novo remexeu-se e reclamou no meu colo receptivo. Ficou ali até chegar comida e bebida, mas fungou, praguejou, negou e contorceu-se até torná-lo um colo frustrado e hostil. Que fosse para sua cadeira, então, comer sua comida. Era definitivo.
Muito corcunda e contrariado, começou a chorar bem alto. E a tossir. E a soluçar. E a gritar. E a chorar com mais força, o que fazia a tosse muita e o grito rouco.
Eu e o avô revezamo-nos nos papéis de policial bom e policial mau, sobrepondo inclusive as mesmas funções, mas ele só fazia atropelar-se no próprio choro. Tentamos até comer em paz, sem olhar para o rostinho surtado e vermelho, dando chance de acalmar-se sem nossa interferência. Até que começou a dizer entre soluços: “eu-não-con-si-go-pa-rá!”.
Então me lembrei de uma ida ao dentista, quando menininha, pouco mais velha que ele, quando era eu quem não conseguia parar de chorar. Empatia.
Mastiguei mais algumas garfadas e deixei o restante da apetitosa comida esperando, no canto do prato, o meu retorno. Peguei um guardanapo limpo e um copo d’água na mão esquerda, e na direita peguei a mão de meu pequeno. “Vem comigo aqui fora”.
Venceu o salão populoso andando e chorando. Escolhi ao ar livre um cantinho de sombra e silêncio, agachei. Já contei que os olhinhos dele esverdeiam sob camadas d’água salgada?
“Olha pra água desse rio”. Mostrei o trechinho de represa marrom quase abaixo de nós. “Ela é água calma. Olha pra ela e pega a calma pra você.” Não enxergou a água, nem o objetivo da conversa. Chorava muito. “Tá vendo essa árvore aqui? Chega mais perto.” Peguei sua mãozinha. Segurou em pinça uma folhinha empoeirada furada por taturana. “Isso, essa folha é calma, pega a calma dela pra você”. Começou a concentrar-se e alguns soluços passaram a suspiros. “Agora segura firme esse tronco de árvore”. Na pontinha dos pés envolveu-o com a mão. “Fecha seus olhos e respira com calma”. Inspirar era ainda muito difícil, mas expirava em sopro, como o ensino a fazer antes de dormir. Repetiu muitas vezes. “Muito bem. Você está se acalmando. Muito bem. Quer água?”. Tomou um gole, me olhou nos olhos e pude convidá-lo: “Agora dá um abraço”. Senti seu corpinho suado junto ao meu e sua alminha lavada também.
“Você viu que está passando?” Piscou assentindo. “Isso que você teve chama crise de birra. Agora já acabou. Eu já tive crise de birra e o vovô também já teve. É normal, todo mundo já teve. Mas agora a sua já acabou e a gente vai voltar lá dentro pra almoçar”.
“E eu vou sentar no seu colo”, disse ele. “Não, você vai na sua cadeira e eu vou na minha”, disse eu, convicta e serena.
Para minha incredulidade, começou a bater os pés na terra e a gritar novamente. Dos seus olhos lindos brotaram lágrimas instantâneas. Perdi a compostura. “Pode parar agora!”. “Eu não consigo”, cantou desafinado. “Aaaaah, consegue sim, pode conseguir!”.
O orgulho que até então sentia de mim mesma deitou naquele chão quente e misturou-se ao pó. Perdi os esses e os erres e minha voz de gralha ganhou garras que apertavam firmemente seus dois braços. Por sorte, partiu dele a próxima iniciativa iluminada. “Então eu quero fazer tudo de novo”.
“Ótimo”. Trouxe-o para perto da mureta pela mãozinha. Tentou olhar a água, pegou sozinho na mesma folhinha judiada e segurou com confiança o tronco da árvore. Soprou a raiva pra fora, cinco vezes, tomou um gole d’água e veio me abraçar. Tivemos mais uma chance. Agachada diante dele tentei um sorriso, interrompido pelo meu próprio dedo em riste. “E ó: nada de ficar com vergonha. Todo mundo aqui já teve uma crise de birra, é normal e já passou. Todos vão ver que você se acalmou e nem vão mais se preocupar”.
Entramos de volta, de mãos dadas. Comemos peixe, batata de bolinha e arroz verde, “que eu gosto muito”. Ouvi novamente sua voz limpa e amigável. E descobri ter também dentro de mim uma voz limpa e amigável.

A princesinha recém-nascida que espetou o dente num fuso horário e…

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Zurique, noite de 16/07/2013

O sono, difícil já há várias noites, esta noite não é nem esperado. Brincam que será a última livremente dormida, mas sabem que é o ponto de vertigem: dentro de algumas horas o tempo parará e o espaço se redefinirá. Receberão nos braços sua filha.

São Bernardo do Campo, 20:00h.

Beijo os filhos que dormem em suas camas e posiciono sob o travesseiro do mais velho o primeiro dentinho caído. Beijo-o novamente, respiro o mesmo ar que eles, mantenho-me ali. Gratidão por eles, por poder ser a mãe deles, pelo tempo que passa sem que eu precise agir para isso e sem que eu possa impedir.

São Bernardo do Campo, 22:30h.

Vou para a cama. Leio um pouco. Penso um pouco. Mãos moles começam a desfiar o terço. Olhos abertos brigam com o faixo de luz que entra pela porta entreaberta. Véspera de algum natal: dentro de algumas horas serei tia.
Mistério após mistério, contemplo o mistério da vida, os misteriosos desígnios de Deus para nossas vidas, do começo ao fim delas.
Com uma esperança insistente, peço que Juju possa anunciar sua prontidão antes que finde seu prazo do lado de dentro do útero ruidoso e aquecido. Que dê tempo de fechar o ciclo sem atropelos.
Um pouco de desejo, um pouco de sonho, um pouco de memórias. As Ave-Marias de mãos dadas puxam umas às outras como numa ciranda colorida em chão de nuvens. Rosas vermelhas, uma a uma, compõem um grande buquê perfumado.

Zurique, madrugada de 17/07/2013

O imprevisto: contrações os fazem telefonar para o médico. Escutam as orientações. Trocam o tram pelo taxi e vão para o hospital algumas horas antes do previsto.

Zurique, 6:37

Nasce Julia.

São Bernardo do Campo, 4:00h.

O Pi chora forte e decidido. Ao me ver, prontamente se acalma, diz que precisa ir ao banheiro. Tiro sua blusa quente demais. Vamos de mãos dadas, acendendo poucas luzes. Deito-o em sua cama, cubro-o. Pede que acenda a luz de apoio, cedo. Espio de relance o Davi dormindo de boca aberta, um dentinho a menos. Séria e sonolenta, volto para a cama tentando calcular o que está acontecendo cinco horas adiante.

São Bernardo do Campo, 5:00h.

Escuto passos que parecem muito perto. Tento entender se é dentro ou fora da minha cabeça, se é o vizinho de cima deitando tarde demais ou o marido já levantando. Sinto o toque macio do pequeno insone, que sobe na minha cama pedindo para ficar aqui só um pouquinho. Aninha-se tão intimamente que logo durmo embriagada pelo cheirinho limpo da sua cabeleira de luz.

São Bernardo do Campo, 7:20h.

Sinto o corpo judiado. Muito concentrada, me desvencilho das mãozinhas quentes do Pi que envolvem meu braço dolorido e desvio das cobertas. Levanto, suspiro, olho para pai e filho deitados lado a lado, tão diferentes e tão parecidos. Vou para o banheiro.

São Bernardo do Campo, 7:30h.

De dentro do banheiro, escuto um falatório animado.
Pode ser o bom humor natural das férias.
Pode ser a comemoração pelo carrinho de rodas azuis que magicamente surgiu debaixo do travesseiro do Davi.
Mas a animação é muita. Destranco a porta.
O marido está em pé, falando ao telefone.
Recebo o fone e escuto, vinda de um reino tão distante, a notícia: “Parabéns, tia Aline!”.

***

Esta noite, em algum lugar do mundo, houve um acontecimento mágico. Surpreendente, incompreensível. Algo que supera nossas forças e nossos poderes. Que enche este dia e os seguintes de magia e de graça. O sabor de ganhar um presente, sem muito merecê-lo.
A Fada do Dente trabalhou direitinho, e manteve oculta sua luz furta cor, mesmo numa madrugada assim agitada. Tocou bem suave o som dos sininhos, levantou, com as asinhas batendo, a ponta do travesseiro do Davi. Deixou ali embaixo seu presente e recolheu seu rastro de estrelinhas brilhantes antes que pudesse nos incomodar…

***

São Bernardo do Campo, 9:30h.

Davi empurra seu carrinho sobre a colcha da minha cama. “Mamãe? Você sabe se a Fada do Dente, ou o Papai Noel, ou o Coelhinho da Páscoa, recebem alguma ajuda de Deus ou de Jesus?”.
Uso outras palavras para responder o que se impõe: se até nós, meros seres humanos, recebemos tanta, como os seres encantados não haveriam de receber?

Como se fosse um dia comum

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Após a escola, almoço em família, natação, passeio pelo centro da cidade, visita à bisavó. O privilégio de compartilhar o dia com a tia que mora muito, muito longe.
No final da tarde, o pequeno chegou em casa dormindo, mas ao ser depositado na cama, começou a falar enrolado e rumou para a sala, de onde vinham as vozes da tia e do irmão.
Assistiram a filmes, mexeram nas coleções de cacarecos, ficaram por mais algumas horas misturando almofadas e pés, matando tempo, convivendo como se este fosse um dia comum.
Até que a noite chegou. Corpo exausto e coração apertado, os meninos começaram a brigar. O pequeno pediu para ir dormir, mas a mãe determinou uma sopinha. Tomou cinco colheradas entre soluços e protestos, depois de ter arremessado uma lata na canela do irmão e perdido a guarda de seu bonequinho predileto, que fora o motivo da discórdia.
Já deitado em seu quarto, de olhos fechados e molhados, protestava: “quero o Buzzinho, quero o Buzzinho, quero o Buzzinho”. Massagem nas costas e um bom cafuné fizeram-no relaxar, transformando o mantra em cantiga de ninar. Mas não ninou. Declarou “já se acalmei” e em seguida tentou a sorte: “agora posso ir lá com eles?”.
“Não, filhinho, a tia Helô só ta cuidando do Davi pra você dormir, jajá ela vai embora”.
“E amanhã ela volta aqui?”, perguntou com a testa crispada diante da possibilidade da resposta negativa. Olhos rasos d’água convocaram os meus. Silêncio. Autorizei nossa saída.
Despedimo-nos da visita sem saber quando é que ela vai voltar aqui pra nossa casa bagunçada, sentar no chão e montar Lego, preparar o melhor dos mingaus.
Fomos direto da porta para a cama, rezamos comovidos e entregamos a Deus nossas fraquezas e nossa saudade. Saudade da tia Helô e do tio Vitor. E, por parte do Pi, saudade hoje também do Buzzinho.

O universo paralelo do sono

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Uma vez, há alguns anos, imprimia muito cuidadosamente cópias do volume da minha qualificação de mestrado para encadernação no dia seguinte, quando a tinta da impressora acabou. Não tínhamos reserva em casa. Eram dez horas da noite. Mantive a calma, procurei não me taxar de irresponsável e tomei coragem para a atitude mais acertada: pedir socorro para o meu pai, que já devia estar dormindo com os anjos haveria ao menos uma hora.

Telefonei. Ele me atendeu bem humorado, estava mesmo dormindo, mas não via problemas em acordar para me atender, nem em seguir as instruções minuciosas que eu enviaria por e-mail; na manhã seguinte os volumes estariam em minhas mãos. Foi tão solidário e compreensivo, que até brincou comigo: “a tinta da impressora é como os grampos do grampeador: só acabam quando a gente está usando”. Ri, relaxei, confiei.

Na manhã seguinte, aliviada pela conclusão de uma etapa, pisei na garagem de casa uns minutinhos mais tarde do que o comum, e percebi um vulto em frente ao portão. “Você não está atrasada, mocinha?”. Recebi no colo cinco blocos de papel cuidadosamente separados, ordenados e identificados.

O semblante sério de meu pai soou incompatível com a receptividade dele na noite anterior. “Tá tudo bem, Pá?”. “Tudo bem, mas você não acha que arriscou muito em me pedir uma coisa assim tão importante por e-mail, sem nem me avisar? E se eu por acaso não olhasse o computador ao acordar?”.

Agradeci e peguei a estrada; estranhei o mal entendido, repassei todo o evento no longo caminho até a faculdade, não conseguia ligar as pontas. Mais tarde, com os volumes entregues à encadernação, surgiu-me uma hipótese. Telefonei para meu “pai pra toda obra” e descobri que ele não tinha registro mnemônico do telefonema, apenas do e-mail – que acreditou ter lido em tempo hábil por pura sorte. Nesse caso eu tive, realmente, muita sorte.

Recorri aos detalhes emocionais da história, não são eles que fazem a ponte entre os amnésicos e sua própria mente nos lindos filmes? “E não te soa familiar que os grampos do grampeador teimem em acabar única e exclusivamente quando estamos usando?”. Silêncio. Confusão mental. “Alguém me falou isso esses dias”, ele disse encafifado, e completou: “não foi você?”. “Por e-mail?”, eu retruquei. Não, ele sabia que aquelas palavras haviam sido trocadas na modalidade oral, e começou a desconfiar de uma lacuna em sua linha óbvia de raciocínio, e não de uma atipia em minha linha – geralmente confiável – de ação. Até que se convenceu: eu realmente telefonara para ele. Quando ele estava dormindo.

***

Esta semana voltei do clube ao anoitecer com os meninos exaustos, o Pedro adormeceu no carro. Coloquei-o na cama bem cedo, ele ficou. Hora e pouco depois, fizemos barulho demais e ele choramingou. Entrei no quarto abafado e, vendo que estava suado, ofereci água a ele. Ficou de quatro, com os joelhos apoiados no colchão e as mãozinhas no travesseiro, sugando a água do copinho com válvula tão bichinho e tão branco como um hamster.

Tomou meio copo e parou para respirar. Para minha surpresa, tornou a sugar muitos goles. Engasgou e suspendi a água – eu, mãe, não tinha interesse em tanto xixi. Deitou e sussurrei a ele que achei seu boneco (que há dois dias ele procurava pela casa). Muito me espantou vê-lo segurar o Buzz com firmeza –, ele que, diferente do irmão, prefere dormir livre, leve e solto dos bichos e dos amigos.

Ajeitou o corpo do Buzz na mãozinha com muito tato, e… começou a chupar-lhe a mão de borracha. Incrédula, segurei o riso e observei. As sobrancelhas franziam, os sulcos nas bochechas indicavam a força crescente de sucção.  Nada feito. Ainda com os olhos fechados, segurou o boneco com as duas mãos, e fez-lhe rodopiar. Abocanhou um pé, e dá-lhe sugar a botina. Eu sentia os meus olhos espremidos molharem de riso, o abdômen doer, o fôlego faltar. Antes de meter na boca o terceiro membro ele abriu os olhos levemente, mas não registrando o que viu, pôs- se a chupar com esmero a mão esquerda do boneco. Suspeitou do encaixe, chupou-a de costas. Não aguentei e sonorizei um breque da minha gargalhada. Ele abriu os olhos e riu também, uma risadinha social. Aceitou, sem perceber direito, que eu trocasse o Buzz pela água, tomou mais uns ml, deixou o copo ao lado do travesseiro e virou de lado, deitado sobre as mãozinhas. Dormiu até o amanhecer.

Mozzzquitozzz

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Levantei enfurecida aos quarenta e cinco minutos de um novo dia. Como se um pernilongo petulante me dissesse ao pé do ouvido: “dzzurma com ezzze bazzzulho…”

Recrutei marido para a cama, amanhã viajaremos cedo. Ele demorou para entrar no quarto. Demorou para pegar no sono. Mas eu demorei mais do que ele. Até que resolvi levantar para matar o pernilongo que eu não conseguia enxergar só com a luzinha de apoio.

Olhos espremidos de sono e claridade, pés descalços no chão frio, cabelo insistindo em cair na cara. Três príncipes capotados ao meu redor, tão dormindo que não puderam apreciar minhas poses ninja em trajes pouco nobres correndo atrás daquele inferno em forma de mosquito. Que logo percebi serem dois. E que, depois de morrer esmagado pela terceira vez, compreendi serem mais.

Um foi avistado na tela de proteção da cama do Davi. Voou de mim assim que o ataquei. Outro, no osso do pé dele, ali mesmo, onde a picada mais coça. Sensação total de ineficiência. Por fim, vi um dos grandes na têmpora esquerda do meu branquelinho alérgico. Peguei fogo!

Comecei a confundir os restos mortais rodeados por sangue inocente com os próprios mini-vampiros. Qualquer sombrinha era suspeita, e bati vorazmente no teto e nas paredes com minha arma de alta destruição, uma camiseta branca (que talvez nunca mais volte a sê-lo).

Numa das minhas visitas à caminha do Pi ajeitada no chão, percebi que bem ali ao lado, debaixo da minha cama, havia a maior densidade demográfica de bichos. Então fiquei de plantão, abaixada por sobre ele, já salpicado de picadas e erupções alérgicas. Até que ele acordou.

Coçando-se, me perguntou o que eu estava fazendo. Depois disse choramingando que não queria mosquitos nele. Tranquilizei-o e menti que mataria todos, e que ele podia dormir tranquilo. Na luz acesa. Com a mãe montada em cima. Sei.

Ficou me mostrando com o dedinho em riste por onde voavam os pilantras. Minutos depois, quando eu bailava pelo quarto desviando de roupas sujas, sapatos de quatro tamanhos e malas abertas, ouvi uma espalmada forte – que não era minha. Mãozinhas abertas tocando-se ainda, montou um sorriso maroto, olhos fechados, e declarou: “matei!”.

Comecei a rir, tanto que o marido acordou. De sua posição estratégica, o alto do beliche, poderia ser um grande aliado. Recebeu como arma uma calça de pijama enrolada e ordens expressas de fogo. Passou a me indicar com um “ali-ali-ali!” todo movimento suspeito, e fiquei um tanto confusa entre as minhas presas e as dele. Decorei a geografia do quarto e passei a ser capaz de desviar de pernas, de livrinhos infantis jogados e das quinas doloridas dos móveis sem quase olhar.

A cada pouco, eu ia espantar o vento ao redor dos meninos e estimar quantos criminosos ainda haveria sob a cama pelo nível de ruído.

Numa das aproximações ao Davi, ele acordou, arregalou bem os olhos, testa franzida, e perguntou: “que foi?”. Já meio carrancuda, respondi apenas “matar pernilongo” e ele levantou  bambo, equilibrando-se sobre o colchão, resmungando “matar pernilongo agora?! Mas eu tô morrendo de sono!”, como se houvesse acabado de ser recrutado pela minha frieza assassina.

Gargalhei abraçando-o e devolvi-o ao seu colchão, mais coberto do que antes, apesar do calor. Ele pegou no sono ainda com a mímica do sorriso no rostinho, tanto ri que riu comigo, sonado e tudo.

Matamos uns nove. Desisti rendida pela frustração e desiludida pelo número progressivo de filhos de uma p…. ernilonga-pouco-criteriosa-para-a-escolha-de-parceiros que surgiam dos mais inusitados lugares.

Deixamos o quarto salpicado de cadáveres, sim, mas mais salpicado de bolinhas vermelhas ficou o rostinho do Pi.

Transpirei nessa brincadeira mais do que nas caminhadas de final de tarde ao pôr do sol ardente de Bofete, mas em certo momento senti que algo no ar estava mais fresco, e resolvi deitar um pouco, apenas para observar o movimento.

Planejando o equipamento anti-mosquito da próxima temporada, percebi que começara a sonhar e resolvi escurecer de tudo o resto de noite que ainda me sobrava. Com as mãos sujas de sangue, a cabeça coberta pelo lençol e um sussurrado “zzzabia que o zzabiá zzzabia azzzzobiar” no ouvido, dormi até o amanhecer.

Horas depois, levantamos nos coçando, recolhendo os vestígios da batalha sangrenta, e conversando empolgados sobre o filme de ação que azzzistimos na madrugada.