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Tu

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No teu balanceio, mistério
Tua risada me atravessa
No meu colo quente, suspira
Te olho e o que vejo é promessa

Entregue à tua brincadeira
Espero teu tempo passar
Imito e me vejo imitada
Tua força consigo espelhar

Furtivo o olhar que resgato
A voz silencia no ser
Teu tom toma conta do espaço
Estar junto a ti é crescer

Com muita gratidão às crianças que permitem que eu me desdobre para entrarmos em relação.
2 de abril, dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo.

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Horas e horas

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– Mamãe, o que precisa para ser o melhor jogador de futebol do mundo?
– Treino… Sorte… Talento.
– Só?
– Olha, filho… Uma vez eu li que quando a pessoa se dedica por dez mil horas a uma coisa, ela fica excelente nisso.
– Dez-mil-ho-ras?!
– É…
– Ah… eu já tenho, né? Eu jogo futebol todo dia…
Exclamei e ficamos fazendo contas.
– Sabe, filho, tem uma coisa super importante também, que a mamãe não falou. Pra ser um ótimo jogador tem que ter humildade, sabe o que é isso?
– Mais ou menos.
– É quando a gente sabe o que falta. É quando a gente vai aprendendo mais e mais sobre uma coisa e percebe que tem muito mais ainda para aprender. A pessoa humilde vê o que ela já consegue fazer e fica feliz, mas sabe que pode melhorar em muitas coisas.


(No dia seguinte, o irmão caçula observa, na ilustração de um livro, o personagem constrangido na aula de hidroginástica.
Irmão: – Porque ele tá com essa cara?
Mãe: – Porque só tem senhoras…
E ele, munido do diálogo da véspera, intervém:
– Você diz só?! Cem horas é muito tempo!)

O TEMA do brinde

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O TEMA do brinde

“Fala pouco, mas fala bem”, foi o que disseram sobre mim durante o jantar, rindo. E revivi uma sensação antiga, do tempo em que eu era quietinha, certinha, boazinha. A tímida CDF, garantida pelos bons modos.
Esta noite, me vi organizando os pedidos e os pratos. Mas todos sabemos que grandes fatos da vida não são exatamente organizados.
Hoje, eu sabia precisamente onde estava estacionado o meu carro – embora nunca encontre sequer meu celular na bagunça do escritório de casa.
Esta sou eu hoje, tão igual e tão diferente. Eles também, iguais e diferentes.
Nesta noite de reencontro, medi, brincando, o punho da doce bailarina C., cujo diâmetro está mantido desde a quarta série e equivale ao diâmetro do punho do meu caçula de quatro anos.
Vi longas unhas de oncinha, outrora roídas. Vi nos cabelos loiros e lisos de F. as molinhas douradas de ontem, pelas quais a perturbava na época o amigo R., hoje pai experiente de três filhos.
Vi nos olhinhos miúdos e bonachões do amigo G. uma criança escondida atrás da barba de um homem feito: Robin Williams.
Vi na alegria e na sociabilidade fácil uma M. F. agregadora, que venceu brilhantemente o bullying, que naquele tempo não tinha nem nome.
Supuseram que eu não pediria chopp – e não pedi. Taparam meus ouvidos ao verem o rubor que me causaram suas palavras irreverentes.
Arriscaram-se nas provocações, brincando que em algum momento esta amizade precisaria de motivos para acabar.
O que penso é que “esta” amizade não é a amizade da infância. É uma outra amizade, que se soma àquela, através da qual unem-se pessoas muito especiais, ao redor de algo que carregam em comum. Nesta mesa há muitas histórias de perdas profundas e doloridas. Há também histórias de ganhos, que são compartilhados e passam a ser celebrados juntos.
Dissemos esta noite que tudo tem um motivo. As crianças que fomos não podiam imaginar os caminhos que percorreriam até chegar aos 35. As crianças que fomos não temeriam sonhar com a oportunidade de reencontrar-se para comemorar o que primeiro tiveram em comum, antes de viajar pelas estradas misteriosas do futuro.
Brindando o hoje, esta noite, brindamos o ontem que nos apresentou e brindamos cada um dos amanhãs que nos trouxeram até aqui – e que não se esgotam.

Que passa?

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Hoje passei, pela primeira vez na vida, roupinhas de bebê cor-de-rosa.
Enquanto isso, passou um filme em minha mente, e percebi que quem nascerá em alguns dias é minha sucessora imediata na linhagem familiar. Entre nós, quatro meninos – em duas duplas separadas por décadas.
Com ela nascerão outras pessoas, uma das quais, tia: eu mesma, em mais um papel que a vida me passa.
Passamos por tanto até aqui! A mulher prestes a nascer mãe passou de minha pupila a cunhada, de menininha a senhora casada.
Passaram seis anos entre o primeiro enxoval de bebê que me vi passando e este que hoje passei. Passou a dor nas costas! Passaram muitos receios e passou também uma fase indescritivelmente intensa. Por duas vezes.
O primeiro filho desta mãe passa a primo mais velho. E o segundo, a primo “mais magrinho”, como ele mesmo diz, passando despercebido pelos opostos enganados.
E todos nós passamos juntos pelos privilégios de termos uns aos outros, por mais tempo que passe até que possamos nos abraçar de verdade.

Mais um ano que se passa

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Nesta tarde de sol quente,

encomendada de presente,

a quem merece imensamente,

o privilégio a gente sente:

nós duas e nossos meninos,

passeando pelo condomínio,

sentimento do mais genuíno,

uma declaração eu assino.  

Que os dois pares de olhinhos abstêmios não me vissem, mas precisei pôr um dedo de Coca Cola num copinho descartável. Engoli com sofreguidão. Quase engasguei, o nariz coçou, os olhos, envesgando, lacrimejaram. Há dezoito ou vinte anos meu organismo respondia mais suavemente a essa solução de cafeína, gás carbônico e pó de pirlimpimpim – ou o que quer que fosse – e eu ria de chorar, gargalhava de rolar e enchia outro copo. Numa noite de janeiro, linda como a de hoje.

Naquele episódio, além da alegria, o sono certamente contribuía para o espetáculo. Mas esta noite, passadas duas décadas, o sono ficou mais evidente na geração seguinte. Davi cantarolava com o queixo apoiado dentro do prato sobre uma rodela de calabresa. A madrinha aniversariante, deleitando-se ao som de um afinadinho “Smoke on the water”, selecionava histórias para contar aos nossos três pequenos. Os dois mais elétricos pulavam nos assentos, sobre pedacinhos de mussarela e papéis de Sonho de Valsa. O terceiro rendia-se, deitado em duas cadeiras.

Numa linda noite do final de janeiro, como hoje, minha vida mudou. Uns nove quilos atrás, uns nove anos mais leve, eu conhecia o homem da minha vida. Naquela noite, a vontade de nunca mais ir embora usava como desculpas a folga do domingo e a certeza da amizade. Por muitos meses, alguns anos, nossos maridos formaram conosco um quarteto inseparável. Hoje estiveram cuidando de seus assuntos, dando a nós a tremenda oportunidade de curtirmos uma à outra e de detectarmos, muitíssimo satisfeitas, que os filhos já permitem que sentemos juntas e em paz, enquanto se afundam por si sós num mar de dinossauros sem braço, carrinhos sem roda e bolos sem mais nenhuma cereja.

Quanto à vontade de não mais ir embora, foi transmitida geneticamente aos estômagos do meu par de meninos: um deles reclamando com premência o presente que há algumas horas entregara à madrinha – um anel tão lindo quanto bijouteirento, cujo brilho prateado conquistou-o definitivamente na vitrina do bazar. O outro, comendo o que lhe oferecessem, rindo até dos escorregões, tentando argumentar sobre lua e estrelas.

Não é apenas por encerrar as férias. Não é apenas por ser em Janeiro-de-Belas-Noites. É por ser a comemoração do nascimento de uma grande amiga. Uma amiga que batizou-se no colo de minha mãe, e no colo de quem batizou-se meu filho. Uma amiga com quem compartilhei, no altar, ouvindo a mais linda das Ave Marias, olhares a Nossa Senhora da Assunção. E também, entregando nossas perdas e nossos ganhos, nossas dores e nossas gratidões, compartilhei outro dia mesmo olhares a Nossa Senhora da Boa Viagem rodeada por cavalos, cavaleiros e pelas bandeirinhas que nossos meninos agitavam ao som do Hino e de quase axés.  

Nesta noite – não há trinta anos, quando meus pais me levavam para comer gelatininhas multicoloridas e cantar parabéns em quentes tardes de janeiro –, nesta precisa noite, dirigi pela Anchieta levando meus filhos para casa depois de abusar do horário, e escutei Ira tocar no rádio. “Mais um ano que se passa… envelheço” – eu também. “Essa vida é jogo rápido”. É sim. Um jogo que dá muito gosto jogar.   

Escrito hoje. Para a Moira.