Arquivo da tag: tia

Verdes vítreos

Padrão

Final da década de cinquenta. Naquele início de noite, os olhos da menina prestaram toda atenção aos olhos de sua mãe. Todos os quatro verdes vítreos.
Duas das muitas primas acabavam de partir a pé, segurando, uma de cada lado, as mãos frias daquela entre muitas tias. Os olhos verdes da menina observaram-nas de costas, cada vez menores.
A visita fora corriqueira, não moravam tão longe. Brincaram juntas no quintal de terra, ouviram palavras adultas comuns nas vozes de suas mães, caiu a tarde, caíram as temperaturas.
Antes da despedida, a menina observou os longos braços das parentas, sempre pelados. Correu até o quarto e pegou suas duas blusas quentes. Entregou a elas, livre como seu coraçãozinho caçula.
As primas vestiram e sorriram. “Pode ficar”, escutaram. Seguraram as mãos frias da tia e partiram, cada vez menores foram ficando as duas blusas quentes da menina.
Escurecia. “Você viu o que você fez?”, a menina ouviu a voz da mãe perguntar. Não existiam outras blusas. “E agora, como você vai ficar?”. Foram perguntas. Questões simplesmente apresentadas pelos olhos verdes vítreos da mãe, direto para os seus.
Ela prestou toda atenção. Nunca mais se esqueceu disso. E ficou bem.

___________
Para tia Neusa. Com amor.

Anúncios

Que passa?

Padrão

Hoje passei, pela primeira vez na vida, roupinhas de bebê cor-de-rosa.
Enquanto isso, passou um filme em minha mente, e percebi que quem nascerá em alguns dias é minha sucessora imediata na linhagem familiar. Entre nós, quatro meninos – em duas duplas separadas por décadas.
Com ela nascerão outras pessoas, uma das quais, tia: eu mesma, em mais um papel que a vida me passa.
Passamos por tanto até aqui! A mulher prestes a nascer mãe passou de minha pupila a cunhada, de menininha a senhora casada.
Passaram seis anos entre o primeiro enxoval de bebê que me vi passando e este que hoje passei. Passou a dor nas costas! Passaram muitos receios e passou também uma fase indescritivelmente intensa. Por duas vezes.
O primeiro filho desta mãe passa a primo mais velho. E o segundo, a primo “mais magrinho”, como ele mesmo diz, passando despercebido pelos opostos enganados.
E todos nós passamos juntos pelos privilégios de termos uns aos outros, por mais tempo que passe até que possamos nos abraçar de verdade.

Como se fosse um dia comum

Padrão

Após a escola, almoço em família, natação, passeio pelo centro da cidade, visita à bisavó. O privilégio de compartilhar o dia com a tia que mora muito, muito longe.
No final da tarde, o pequeno chegou em casa dormindo, mas ao ser depositado na cama, começou a falar enrolado e rumou para a sala, de onde vinham as vozes da tia e do irmão.
Assistiram a filmes, mexeram nas coleções de cacarecos, ficaram por mais algumas horas misturando almofadas e pés, matando tempo, convivendo como se este fosse um dia comum.
Até que a noite chegou. Corpo exausto e coração apertado, os meninos começaram a brigar. O pequeno pediu para ir dormir, mas a mãe determinou uma sopinha. Tomou cinco colheradas entre soluços e protestos, depois de ter arremessado uma lata na canela do irmão e perdido a guarda de seu bonequinho predileto, que fora o motivo da discórdia.
Já deitado em seu quarto, de olhos fechados e molhados, protestava: “quero o Buzzinho, quero o Buzzinho, quero o Buzzinho”. Massagem nas costas e um bom cafuné fizeram-no relaxar, transformando o mantra em cantiga de ninar. Mas não ninou. Declarou “já se acalmei” e em seguida tentou a sorte: “agora posso ir lá com eles?”.
“Não, filhinho, a tia Helô só ta cuidando do Davi pra você dormir, jajá ela vai embora”.
“E amanhã ela volta aqui?”, perguntou com a testa crispada diante da possibilidade da resposta negativa. Olhos rasos d’água convocaram os meus. Silêncio. Autorizei nossa saída.
Despedimo-nos da visita sem saber quando é que ela vai voltar aqui pra nossa casa bagunçada, sentar no chão e montar Lego, preparar o melhor dos mingaus.
Fomos direto da porta para a cama, rezamos comovidos e entregamos a Deus nossas fraquezas e nossa saudade. Saudade da tia Helô e do tio Vitor. E, por parte do Pi, saudade hoje também do Buzzinho.