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A horta do vô Pedro*

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Perto do centro de São Bernardo, num bairro chamado Vila Duzzi, morava um bisavô.

Velho, brincalhão, grandão e muito forte, ele gostava muito de comer feijão, de pescar na represa Billings, de consertar coisas em seu porão e de cuidar de sua horta no quintal.

No porão, tudo era escuro e tinha um cheiro fechado.

Lá, uma vez por ano, ele fazia vinho. Esse é um jeito de aproveitar a agricultura, porque as uvas são colhidas, esmagadas, misturadas com açúcar e fermentadas, e depois ficam em grandes vidros, chamados tinas, borbulhando até o vinho ficar pronto para os adultos beberem. Essas borbulhas fazem um barulho engraçado, e o vô Pedro achava que pareciam sapos.  As crianças gostavam de entrar no porão do vô Pedro para escutar os sapos coaxando. 

Na horta, tudo era iluminado pelo sol, e tinha um cheiro aberto e muito ventilado.

Lá, ele já plantou muitas coisas. Salsinha, cebolinha, manjericão e manjerona, que eram usados como temperos.  

Alecrim, boldo, louro e hortelã podem temperar também, mas ele usava principalmente para fazer chás. Uma erva chamada marcelinha galega, que ele também plantava em sua horta, dava um chá ótimo para fazer a dor de barriga passar.

Almeirão e alface eram as verduras que ele mais plantava. O almeirão, que ele chamava de “almerôn”, crescia muito bem em sua horta, e ele adorava comê-lo na salada, mas as crianças achavam um pouco amargo…

Quando as plantações estavam novinhas, com as folhinhas começando a crescer, ele dizia que era um “berçário”. Então, colocava espantalhos na horta, para os passarinhos não chegarem nem perto. Uma vez, as crianças tentaram fazer um espantalho com roupas de verdade e um chapéu velho, mas normalmente os espantalhos que ele usava eram mesmo pedaços de ferro comprido enfiados na terra, que balançavam com o vento. Um bom jeito de aproveitar as sucatas…

Também plantava limão e tomate. O Davi, bisneto do vô Pedro, aprendeu a gostar de tomates quando comeu um tomate da horta, quando ele tinha um aninho. Nesse dia, ele se lambuzou muito… e até hoje adora tomates.

Por muitos anos a horta foi em chão de terra. Depois, foram cimentados uns corredores ao redor das áreas de plantação, e ninguém podia pisar nos canteiros (isso evitava que os pés sujos de barro deixassem pegadonas de avô e pegadinhas de netos por toda casa). Os netos brincavam que os corredores eram ruas e avenidas, escreviam neles seus nomes com giz de lousa e brincavam de trânsito com suas bicicletas e motocas.

Nos finais de tarde sem chuva, ele aproveitava o ar livre regando sua horta com a mangueira, enquanto músicas antigas e instrumentais tocavam no radinho a pilha que ficava lá no alto da escada. É, o rádio ele não queria molhar… Mas se estivesse calor e alguma criança sapeca passasse por ali, era banho de mangueira na certa!

Depois, os netos cresceram e o vô Pedro ficou mais velho.  Já não era tão fácil para ele ficar ajoelhado adubando, removendo mato, plantando e colhendo. Então, foram construídas áreas elevadas para os canteiros. Assim, o bisavô pode cuidar da horta ainda por muito tempo.  

Em alguns canteiros, ao invés de horta de alimentos, havia belas flores. Algumas, o vô plantava para embelezar. Outras, apareciam ali de surpresa, plantadas pelos passarinhos e borboletas do bairro, que carregavam pólen de outros quintais. Acho que os passarinhos e insetos faziam isso em sinal de gratidão, porque deviam gostar muito de sobrevoar esses pedacinhos de natureza no meio da cidade.

Além de ervas e vegetais, o vô Pedro plantou muitas coisas boas em sua longa vida. Depois de bater por oitenta e sete anos com muita saúde e energia, o coração do vô Pedro parou, e hoje ele mora lá no Céu. Nos dias em que o seu xará, São Pedro, não manda chuva, o vô dá fortes gargalhadas enquanto rega uma bela horta nas nuvens…

 

Para Davi, Pedro, Alice, Artur, Riquelmi e Renan.

Postado em comemoração ao aniversário natalício de 90 anos do saudoso vô Pedro.

* Livro artesanal, elaborado como contribuição ao projeto “Cooperativas agrícolas: plantadores do bem”, da escola do Davi.

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Bódibaiábadôi

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Hoje levantei incrédula: dormi a noite toda e acordei com a sensação de ter acabado de sair do chão da sala, em meio aos brinquedos, para onde voltaria dentro de instantes, recém acordada por uma vozinha bebezal rouca declamando: “Meu meia! Meu meia tirô! Ôta tá, ôta não tá!”.

Há uma semana reduzimos drasticamente a televisão aqui em casa. Os resultados são palpáveis: o Davi, viciado mor, está muito mais criativo, disposto, espontâneo, divertido. Só volta ao comportamento padrão de exigente, reclamão, desanimado e desmotivado depois de assistir a horinha de desenho que eu permito – aliás, da qual necessito para fazer o jantar.

Estamos nos divertindo muito juntos, nos conhecendo melhor, brigando muito e nos perdoando mais. Há períodos em que ficamos tão absorvidos na atividade que levo um susto ao olhar para o relógio. Há outros em que mudamos tão freneticamente de atividade que a casa parece um campo de batalha hipercolorido, cheio de peças de plástico, retalhos de papel, bonecos acumulados sob almofadas, panos de todos os tamanhos estendidos e embolados, figurinhas coladas nos lugares mais improváveis, migalhas de bolacha e pedaços abandonados de frutas pelos cantos.

Nas duas situações me pego escapando e vindo para o computador: meus e-mails são o contato mais estável com o mundo externo; o blog tem me instigado muito; tenho textos em pdf para ler para um curso toda semana.

Às vezes, os meninos deslancham apertando botões barulhentos ao meu redor, fuçando em livrinhos, rabiscando com canetinha papéis de rascunho e os próprios corpos. Geralmente, finjo que participo, ajudando a abrir uma caixa aqui, oferecendo um potinho de giz de cera ali, recortando bem em cima da linha acolá.

Mas, quase sempre, depois de alguns minutos, desligo o monitor e volto para o chão, onde começo instintivamente a realizar os pedidos deles, guardar e arrumar o que estiver ao meu alcance.

Eles têm que aprender a brincar sem mim e tenho esperança de que surja neles essa criatividade independente e ajuizada que o coletivo das mães só pode idolatrar. Mas é evidente que é muito difícil para esses serzinhos em miniatura abdicarem de uma presença tão acessível, tão facilitadora – e tão gostosa. Ao menos por enquanto.

Hoje fomos para a casa do vovô e tentava me concentrar numa leitura em meio aos barulhos lá autorizados e à agenda mental da rotina diária, quando o Pi se aproximou insistente. Eu já havia explicado várias vezes a ele nos últimos instantes que precisava ficar no computador um pouco. Mas ele garantia que meu colo era essencial naquele momento. E repetia, incansável: “Bódibaiábadôi! Bódibaiábadôi! Bódibaiábadôi!”.

Parei de impedir e de explicar, deixei que subisse, pezinhos descalços, boca suja de lanche da tarde. Sentou no meu colo, de costas para mim, pegou minhas mãos, levou ao teclado, juntou as suas mãozinhas sobre a mesa e ficou tamborilando os dedinhos em bloco, olhando para a tela. Quando ele aprender a falar “minha meia saiu”, provavelmente dirá com todas as letras: “po-de-tra-ba-lhar-no-com-pu-ta-dor. Só quero ficar um pouco aqui no seu colo enquanto isso, mamãezinha”. Então, seja bem vindo meu loirinho cheiroso…

Escrito hoje.