Arquivo da tag: viagem

Billings

Padrão

O Bichinho do Posso Fazer Melhor, que vive entre minhas orelhas misturado aos parafusos, me permitiu hoje viver uma tarde atípica.

O Davi tem que entregar, no final dessa semana, uma lição de casa sobre a represa Billings. Minha primeira ideia quando a lição chegou foi promover um estudo do meio em família. Mas os finais de semana se passaram muito ricos e não conseguimos. A semana é sempre tão entupidinha de rotinas que eu deveria aproveitar a tarde da segunda-feira. Era pegar (a estrada) ou largar.

Decidi, muito sensata, que não me precipitaria a o Riacho Grande com os dois debaixo do sol a pino que precede boas chuvas, sem saber quantos chegariam lá dormindo. Vasculhei a internet e achei coisas até bem interessantes para fazer um bom trabalho. Pronto, tudo resolvido.

Mas amo contrariar a mim mesma, e ao primeiro “aonde a gente vai?” que ouvi dentro do carro, ao pegá-los na escola, comecei a desfiar a história da represa, do engenheiro que lhe emprestou o nome, da cidade… e fui até lá mostrar tudo para eles.

Ficaram onze quilômetros muito interessados nos dois lados da Anchieta, no filtro enorme que avistaram ao longe – a tal da “Sibesp” – nos restaurantes que existem em cima dos barcos, e no perigo que é nadar na prainha, onde as pessoas “se afogam até morrer”.

Desceram do carro com uma semente de maravilhamento tão pronta para brotar, que o Pi, quase gritando, passava o dedinho no muro de chapisco ao lado do qual estacionamos comemorando com o irmão: “é pintado! Olha Davi! Pintado com tinta!”.

Andaram rumo às águas saraivando perguntas, planos gastronômicos aguçados e protestos – como sempre. O olfato percebeu o “cheiro maravilhoso”, que parecia camarão frito. Os olhos contemplaram compenetrados o sem fim da superfície prateada da represa. Os ouvidos foram muito estimulados pela disputa entre os pagodes dos trailers concorrentes. O tato sentiu a areia molhada, pedregosa. (O sentido que não tem nome levou o coração à boca quando o Pi correu em direção a outra mulher que não sua própria mãe e, no mesmo instante em que percebeu o engano, assustou-se com uma pombinha barulhenta que voou a sua frente. Berreiro e choradeira encabulada).

Bem, estava faltando o paladar. Mas eu fiquei sem coragem de experimentar os quitutes disponíveis ao nosso redor e fui enrolando os dois com promessas. Que caíram por terra em seguida, quando o Davi gritou apontando para o carrinho de sorvetes de uma muito simpática jovem senhora.

Variadíssimos sabores, um realzinho cada um. Mesmo sabendo que minhas duas mãos seriam muito úteis livres de um picolé próprio, segui o impulso da gula e peguei um para cada um de nós.

Tudo corria bem, até pelas possibilidades ampliadas na dança dos sabores que sempre se impõe, até que apareceram as abelhas. Inicialmente numa pocinha de pingos de uva que vertiam do sorvete escolhido pelo Pedro. Depois, por toda parte. Em especial rondando as orelhas do Davi. Que começou a sapatear “igual a Laura na área de convivência quando um grilo pulou na saia dela”.

Em gargalhadas nervosas eu tentava limpar os rostos melados, manter os meninos calmos e ir andando para longe das abelhas. Não foi nada fácil. Ao Pedro ainda restavam 50 % das lambidas. Mas não era possível ficar ali com cara de paisagem. Então, antes de conseguirmos levantar nosso acampamento em grupo, orientei o Davi a “ir andando”. E ele saiu correndo. Fechando uma bicicleta sobre a qual dois grandalhões se acumulavam. Foi por um triz.

Já livre de parte do lixo açucarado, de mãos meladas dadas com os dois pequenos, rumo ao carro, surgiam gritinhos fruto do contágio do desespero.  Tanto que o Pi teve a iniciativa de jogar no lixo o último pedaço de picolé.

Camisetas imundas, meladas, suadas, mãozinhas piores. Só resisti ao impulso de jogar nelas a água da Billings que colhemos cientificamente numa garrafinha pet, porque… Bem, as mãos já estavam suficientemente sujas…

Anúncios

Angelus

Padrão

Acabaram de sair de casa. Um deles trajando o verde espantado da camisa que uma vez o Ademir da Guia assinou. O outro, vestindo uma camiseta em que se lê “Germany”, a casa da Oktoberfest, o destino de daqui a quatro horas.

Foram de trem, acordaram atrasados e perderam o primeiro. Disseram ter tomado café da manhã e o cheirinho de pão torrado me fez acreditar. Ficaram em pé, olhando minha cara amassada e despenteada, com sorrisos pacientes no rosto.

Nao quis pegar a máquina fotográfica no quarto, porque a noite com o pequeno exausto de tanto passear com os tios não foi assim muito lisa. Disse a eles que teria a foto na minha mente. Quem duvida?

Respirei fundo e, assim que tomei coragem, o sino da Igreja tocou, tambem ele decicido. Vamos rezar um Angelus? Hum hum, me esperaram chorar umas lágrimas encabuladas antes de conseguir começar, e repetimos juntos as mesmas palavras que declamavamos habitualmente anos (vários anos) atrás.

Segurei as duas mãos mais irmãs que tenho e vi um enroscar o dedo do outro, como quando ficavam de bem depois de brigar. Não só por isso, mas tenho certeza de que já fizeram as pazes para sempre.

Faça-se em nós segundo a Vossa palavra. Em nossas vidas, em nossas famílias que são uma só. O Verbo habita entre nós.