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Ela tinha olhos nas costas e muitos pares de tamancos.

Um verde profundo no olhar, cabelos lisos permanentemente disfarçados pela permanente.

Sobre suas calcinhas, digo que eram gigantescas – eu as amarrava nas laterais quando, por algum acidente, precisava pegar emprestadas – e que, na minha humilde opinião,  nunca funcionaram como buchinha no banho. Eu preferiria a espuma generosa de uma esponja, como estava acostumada, mas na casa da vó o banho era com sabonete esfregado no “paninho”.

Duas coisas me faziam ter ataques de riso: seu rosto espremido por uma gargalhada que a fizesse molhar os olhos e tirar os óculos; seus pés sem o esmalte vermelho. O segundo motivo eu não sei explicar, mas me fazia rir muito, muito. Suas unhas dos pés viviam vermelho ambulância, e vê-las ao natural era no mínimo constrangedor…

Tinha tudo planejado, organizado, preciso e bem feito – com antecedência. Não suportava que a esperassem: bem antes da missa das quatro começar já estava de batom e spray nos cabelos; na Marginal Tietê já segurava nas mãos a chave do portão de casa.

Calculava que precisaríamos de nada mais, nada menos do que trinta e dois pãezinhos – para ela os moreninhos! Não gostava que interferissem em suas panelas – afinal ela mesma não interferia no porão de ninguém…

Dirigia. Primeiro, um fusquinha bege. Depois, um gol bordô, como ela mesma escolheu. Aceitou me acompanhar nas primeiras voltas depois de tirada minha carta, e até hoje repito como um mantra seu sábio “deixe que buzinem”.

Não deixava o dito pelo não dito e ensinava minuciosamente como se lavava alface, como se estendia a toalha da mesa, como se fazia o sinal da santa cruz, como se “totchava” o pão no molho sem sujar as mangas e como se enxugavam as pocinhas no chão do quintal… (esta foi uma estratégia para entreter seis netos entediados num dia feio).

Participava da novena de Natal todos os anos – apesar dos netos que por vezes a acompanhavam tumultuando as reuniões e rindo dos cânticos tocados nas vitrolas das vizinhas.  Rezava o terço diariamente. Tinha padres muito amigos, músicas preferidas e sabemos nós que Nossa Senhora lhe deu a mão e cuidou do seu coração, da sua vida e do seu caminho até o fim.

Cozinhava bem, muito, rápido. E por mais que eu tenha muitas cenas emocionantes para me lembrar, é sentir agora, nesse ar de quinze anos depois, o cheiro de pizza das noites de sábado e o sabor da carne com laranja dos domingos especiais que me faz assumir os soluços e me render à saudade. Que nunca, nunca, vai acabar.

 

*15/06/1926

+15/10/2000

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Canção, novela… romance.

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Ouvir rádio hoje foi mais interessante. Algumas declarações de amor, algumas lamentações de amor, muitas músicas de bailinho da vassoura. A esposa que deixou um bilhete surpresa para o marido dentro do carro, já às cinco da manhã; o radialista que despertou sua companheira com um beijo e um enigma.

Na academia só para mulheres foi instigante observar o movimento das conversas: quando alguém, apaixonada, começava a contar sobre os planos para mais tarde, muitas outras revelavam suas ideias, de românticas a picantes. Quando alguém, frustrada, reclamava que o marido ia jogar bola esta noite, muitas outras entortavam a boca e revelavam suas próprias decepções, de esquecimentos a presentes de grego. As mesmas interlocutoras teceriam conversas muito diferentes, dependendo do estímulo.

Há algumas semanas observei, compenetrada, dois casais durante a missa. Um deles evidentemente de namorados: o rapaz acariciava o ombro da companheira, a abraçava e falava em seu ouvido, mesmo que ela tentasse guardar silêncio ou ficar ajoelhada por um pouco mais de tempo que ele. A expressão corporal da moça, que eu só vi de costas, me disse que ela queria um pouco mais de introspecção e menos paparico. Não deixou de ser receptiva ao namorado, mas me pergunto: porque será que eu li seu pedido por oxigênio e ele não leu? Supus que, dentro de alguns anos, senão meses, senão minutos… a paciência da moça poderá se acabar. E a por vezes inoportuna ternura do rapaz poderá ressentir-se disso.

O outro casal revezava passeinhos, balangadas e passadinhas de fralda no rosto de seu primeiro bebê fofucho. Embasbacados, os dois, com aquela criancinha amada. Mas, enquanto o pai babava litros, a mãe parecia querer um pouco de ordem e de funcionalidade. Sacava os objetos de dentro da bolsa sem precisar olhar para as mãos, arregalava os olhos quando o pai sacolejava o bebê de um jeito que lhe parecesse menos conveniente. Mas ele não soube disso, porque não olhou para ela, não a percebeu; naquela cena só tinha olhos e braços para a filha. Tanto que quando a menininha passou para o colo da mãe, tão entusiasmado abaixou-se para beijar sua barriguinha, que bateu com força a cabeça no nariz da esposa, que, com as mãos ocupadas, nem pode segurar a dor que seus olhos crispados exprimiram. O marido nem percebeu: não pediu desculpas, não a acariciou, não a pegou no colo. Fiquei imaginando que, se isto ocorresse há algumas semanas, ou meses, ou anos, a mulher – que ainda viria a carregar no colo a filha que carregava no ventre, ou que ainda viria a carregar no ventre a filha que carregava na alma – poderia estar sendo consolada, cuidada, admirada e mimada pelo seu companheiro babão.

Avançando ou retrocedendo a fita de nossos discursos, manipulando o tempo do filme de nossos momentos, tentemos perceber nós mesmos o que fazemos com nossos amores e como tratamos quem mais nos importa. Talvez valha a pena recuperar os episódios iniciais de nossas novelas, para inspirar próximos capítulos instigantes e construir o tão desejado final feliz.

Atemoia

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Primeiro, eu percebi a contração desnecessária dos músculos da minha testa. Em seguida, olhei no espelho retrovisor do carro e vi minha cara de má. Por quê?

Então, parada no sinal, respirei fundo e tirei a corcunda, e resolvi começar o exercício de reconhecer a positividade.

E não é que a luz do farol combinava direitinho com aquelas flores bem vermelhas e peludas da árvore exatamente atrás dela? Bonito! Bonitas todas as árvores, e no meu caminho são muitas.

Que interessante os muros das casas vizinhas comporem a cara da rua sem que haja alguma reunião municipal para isso, e os cachorros atravessarem na faixa de segurança (por vezes com mais responsabilidade que os pedestres). E aquele jardineiro descendo da escada, às oito da manhã, a que horas será que ele subiu?

Achei legal andar a pé do estacionamento até a academia e gostei de contar moedas para completar um real. Até a dor na perna esquerda me fez feliz por senti-la ativa.

Dei-me o direito de deixar o carro na vaga da vizinha por dez minutos; comemorei encontrar meu filho de cueca seca; passei batom violeta; abri a janela do quarto para a luz do dia animar meu marido.

Decidi comprar atemoia pela primeira vez e resolvi zerar a quilometragem do carro porque hoje me pareceu um bom dia para ver quanto ele está rendendo.

Pareceu também um bom dia para matricular as crianças no esporte e aproveitar a tarde arremessando-as na piscina de bolinhas do clube. O Davi corre com o polegar dos pés um pouquinho levantado e o Pi trança tanto as pernas ao correr, que poderia acabar dando meia volta. Eles dois babam e tem os dentes mais lindos do mundo. O eco da voz deles dentro do tubogã me faz sorrir inspirando e gosto da moldura que o capuz dá ao rostinho deles. São muito fraternos e proíbem injustiças da minha parte – o que hoje eu recebi com muita gratidão, porque de que me adianta ser injusta?

Não fui eu que fiz as uvas do nosso lanche estarem doces, nem fui eu que desenhei as sobrancelhas dos meninos. Não fui eu que me dei dois filhos homens, não fui eu que determinei a cota de sensibilidade à qual teria direito, não fui eu que graduei a ternura do sol desta tarde.

O que eu precisei foi lembrar que não sou simplesmente uma cara séria e um monte de tarefas a cumprir e que meu coração quer mais do que apenas cada coisa em seu lugar.

Davi e Pedro?

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Há trinta anos um tinha cabelo grosso e o outro loiro aguado

Os dois se abraçavam fraternalmente

O mais novo imitava o mais velho

Choravam de ciúme e injustiça

Assistiam juntos

Dormiam em camas vizinhas

Dividiam milimetricamente o suco e o chocolate

Um ganhava pela força e outro pelo choro

Um chutava a gol, prepotente, e o outro agarrava, subserviente

O pequeno vidrava na sabedoria do grande

O grande babava no despachamento do pequeno

E eu asistia tudo

Cortava o barato deles

Caia na gargalhada junto

Não entendia nada

Era a menina intrusa

A menina preferida

A maior de todos

Que tanto os amava

Que não aguentava as teimosias

Nem as birras

Nem a crueldade que eles conseguiam ter juntos

E que (mesmo que só quando ninguém estivesse olhando) ganhava o privilégio do amor deles.

Que nem hoje…

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(O avô chega apressado na natação e pergunta para a recepcionista: “O Luis Ricardo e o Vitor já chegaram?”. Totalmente compreensível, Pá.)

Cenas de solidariedade por ocasião da Páscoa*

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A imagem do escuro/claro foi a tônica com o Davi nesta Páscoa. Ele entendeu muito bem que às três horas da tarde na sexta-feira santa, quando Jesus morreu, ficou tudo escuro e “chuva, e céu preto e monstros e fantasmas”; a manhã da ressurreição, por outro lado, foi cheia de luz “e as pessoas ficaram felizes porque têm Jesus no coração”.

Tendo introduzido o tema da luz e das sombras, posso contar que durante esta quaresma o lustre de nossa sala queimou, e fomos ao supermercado, eu e os meninos, comprar uma lâmpada para reposição. Depois de passar três vezes pelo mesmo corredor respondendo a infinitas perguntas sobre pneus, lanternas e porque crianças não podem ganhar brinquedos para cachorros, resolvi perguntar para uma moça se ela sabia onde ficavam as lâmpadas.

Enquanto ela me respondia “bem ali”, apontando para algum ponto exatamente debaixo do meu nariz, percebi que ela vestia uma camiseta do uniforme da escola onde estudei durante oito anos. Perguntei o nome dela e me vi abraçando-a, enquanto exclamava “a minha professora de Educação Física!”.

Apresentei meus filhos a ela, e ela a meus filhos. O Pi pouco mudou, continuou sentado no carrinho com sua carinha branca. O Davi começou a piar enquanto eu pedia que ele dissesse “oi”, e a rosnar quando a moça começou a explicar os atrativos da escola para crianças de seu tamanho. Levemente frustrada, me despedi.

Reencontramos-nos minutos depois, na fila do caixa, quando a professora estacionou seu carrinho atrás de nós. Uma senhora pagava sete ou oito contas em nossa frente, o Davi começou a comentar sobre os ovos de Páscoa que forravam a loja, a apontar para seus eleitos, a pedir um deles – o azul – e a fazer uma cena inesquecível de birra. Eu mantive a calma, na verdade estava mais preocupada com a contrariedade por passar por isso às vistas de uma professora que há anos eu não via, do que em driblar os maus modos do menino. 

Quando o constrangimento pela gritaria do Davi, já deitado no chão, após ter usado todos os seus argumentos sensatos (como me dizer “mamãe, estica seu braço e pega o ovo pra mim, você precisa ter coragem!”), transbordou de mim e chegou à minha mestra, ela comentou algo sobre a demora da fila e levou seu carrinho de compras para outro caixa, bem longe dali. Semi-ufa.

Mas a birra continuou e contagiou o irmão. Os dois chorando-gritando, eu começando a considerar impossível passar todos os itens do carrinho pelo caixa, ensacolá-los  com o Pi no colo, pagar e chegar até o carro sem danos à  integridade física de ao menos um de nós. Perguntei à senhora de nossa frente se ainda tinha muitas contas para pagar e ela respondeu, educada, que “não, só mais essas três”. Devo ter feito uma cara de pavor, embora tenha procurado manter minha expressão neutra.

Instantes depois, vi que a senhora mexia os lábios olhando para mim. (Exato, poderia ter dito que ouvi a senhora falando comigo, mas de início não ouvi absolutamente nada além do berreiro de minha prole). Cheguei mais perto e detectei que ela havia interrompido seu pagamento e se oferecia para me ajudar. Começou a pôr meus itens na esteira antes que eu pudesse aceitar. Enquanto isso começou a contar para o Davi que “todos aqueles ovos de Páscoa na verdade estão vazios, porque o coelhinho ainda está fazendo o chocolate, que está mole e só fica pronto na Páscoa”.

Nunca me senti tão bem em relação a uma história engrupidora de menores; os dois pararam de chorar, eu primeiro endossei tudo o que minha consciência permitiu (a outra parcela transformei em “é mesmo?”s), enquanto ela empacotava nossas coisas.  Terminei de pagar e encher o carrinho me desfazendo em gratidão, ela distribuiu “de nada”s sinceros e ainda completou dizendo que “não somos nada sozinhos” e que “nessa vida é um por todos”. Fez todo o sentido e eu tive uma certeza muito encaixada de que também agirei assim quando as crianças choronas da fila não forem as minhas.

Saí de lá sorrindo e serena, tocada com a humanidade que tinha acabado de me encontrar. 

Voltando à luz e às trevas: muito embora tivessem dormido apenas oito horas e durante este período acordado, ao todo, cinco vezes, os meninos despertaram ao primeiro raio de sol nesta manhã de Páscoa. Amamentei o Pedro enquanto fazia planos ousados de levá-los comigo à missa das sete.

Desejamo-nos Feliz Páscoa, encontramos os ovos e cenouras de chocolate que o coelhinho deixou em nossa sacada ao lado da cenoura que deixamos para ele. Engolimos alguns bombons (o Pedro também experimentou os restos da cenoura suja de terra, provavelmente a única coisa saudável que comeria neste dia), nos vestimos, nos despedimos do papai e de seu tornozelo torcido e levamos os brinquedos que vieram nos ovos de Páscoa para a missa.

Nos primeiros minutos dentro do carro o Davi me lembrou de que ainda não tinha feito xixi. Aturdida, conferi com ele se daria para aguentar até a Igreja. Ele consentiu e eu confiei. Chegamos ainda antes da homilia – eu, um coelhinho de pelúcia, as únicas crianças menores de sete anos de toda a Igreja e uma mala maior que uma delas.

Logo no penúltimo banco estava o vovô, que recebeu o Pedro resmunguento de “mamãínn” enquanto eu levava seu irmão mais velho ao toilette. A tia-avó organista nos acompanhou – e segurou o coelho – enquanto o Davi se aliviava reclamando do cheiro de banheiro. 

De volta à Igreja, ele educadamente desejou “Feliz Páscoa” baixinho a todos os conhecidos que encontrou e estabelecemo-nos no banco em que vovô e Pi nos aguardavam. Uma senhorinha fez questão absoluta de ceder seu lugar a nós e manter-se em pé até o final da missa. Mais tarde justificou-se, incluindo nas explicações sua “diverticulite nos intestinos”.

 Não entrarei em detalhes quanto à bagunça e aos ruídos que os meninos originaram durante os minutos de celebração que se seguiram, nem ao menos descreverei os malabarismos que me vi fazendo durante a consagração, em pé no corredor central com um filho no colo (querendo jogar para o alto a bola que segurava) e o outro filho no banco (chorando porque não estava grudado em mim).

Bastará dizer o quão encabulada fiquei após os cristãos idosos que nos rodeavam terem abaixado em média três vezes cada um para recolher os folhetos/peças de brinquedo/sapatos que os meninos compulsivamente deixavam cair.

Achei por bem sair da Igreja com as cuias (a mala ficou com o vovô) e deixar que os pequenos brincassem num cantinho do átrio com as mil pecinhas que haviam levado. Foi aí que uma nova cena marcante de solidariedade teve lugar.

Um senhorzinho, que se apresentou como alfaiate do padre, abaixou ao meu lado e me disse que agora eu não sei, mas um dia saberei; ele tem um bisnetinho que entra em casa correndo e perguntando se “o f*%$ da p&#@ do bisavô dele já foi para a alfaiataria”. (Por uma fração de segundos fiquei em dúvida se o senhor estava reclamando da ingratidão dos seus descendentes, mas logo percebi que não).

Mostrou-me sua carteira com a imagem da Sagrada Face, disse que as crianças são a melhor coisa do mundo, reforçou que um dia, quando eu tiver meus netos, eu saberei, e terminou desejando Feliz Páscoa e dizendo – já teria sido muito bom se ele não tivesse terminado assim, mas devo enfatizar que ele disse  – que viu a forma carinhosa como eu entrei com os meninos na Igreja.

Nesse instante, o embaraço, o cansaço e a ponta de arrependimento por ter levado meus filhos à missa das sete deram lugar à gratidão, à consciência de comunidade e à clareza (com todo peso da palavra após estas linhas) do que é a Páscoa.

 

*Escrito na manhã de Páscoa de 2011.

Exagérese

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Nenhuma vez me disseram o nome desse troço. Tá escrito “e-caligrafiaruím-ese”. Nas idas e vindas do agendamento, eu arrisquei todas as pronúncias que me pareceram possíveis, e só ouvia em resposta um “hum” – em todos os casos. Hoje na clínica resolveram chamar de “procedimento”. Procedimento é escovar os dentes. Estacionar o carro. Dobrar um lençol de elástico…

Clínica cirúrgica, procedimento cirúrgico, sala cirúrgica, maca cirúrgica, campo cirúrgico. E eu ali, deitadinha, durinha, sensivelzinha. Para a retirada de um cisto cebáceo.

A última vez em que aconteceu algo parecido foi na despedida do meu último terceiro molar. (O quarto, então, hehe). Uns vinte e um anos, eu devia ter. E chorei a tarde inteira tomando sorvete no sofá da sala. De pura dó de mim.

Já as primeiras vezes em que passei por algo assim… Inesquecíveis: Aos quatro anos pulava na cama obstinadamente e ouvia a ameaça “cabra maluca quebra os cornos”, como um mantra dando ritmo à molequice.  Caí de testa no baú de cabeceira. Lembro da pia do banheiro cheia de gelo e sangue, e de ter manchado a jaqueta (“capinha”) branca que minha avó tinha lavado na véspera – esse detalhe é o que faz mais efeito no Davi quando conto essa história para que ele pare de pular na cama, ou obedeça, ou saiba que eu, quando criança, também pulava na cama e desobedecia: a capinha branca recém lavada toda manchada de sangue. Dias depois, fui tirar os pontos engatinhando pela calçada, por dois quarteirões, de tanta birra que eu fiz e de tanta firmeza que minha mãe teve.

Aos cinco, operei do primeiro ssisstossebásseo, que eu denominava com o charme do ceceio anterior. Cenas de terror na sala de espera, depois de muito-muito esperar, quando a enfermeira resolveu (coitada, não foi ela que resolveu isso, eu sei) que minha hora tinha chegado. Bem aquela hora, em que minha mãe tinha ido rapidinho no carro amamentar meu irmãozinho. Eu lá no colo da minha avó, de onde não queria sair em hipótese alguma, muito menos para o colo de uma desconhecida vestida de branco, que me puxava com muita força. “Não deixa eles fazerem isso comigo, vó!” – eu gritava o mais forte possível. Ela, com suas unhas vermelhas e seu colo macio, provavelmente partida entre o dever e o querer, precisou me entregar. Logo um cheirinho fumacento de morango calou meus prantos. E depois da alta eu ganhei cachorro quente e brigadeiro.

Hoje, olhando para aquele tudo branco comecei e me sentir uma verdadeira vítima. A posição paradoxal de passividade em que a gente se encontra nesses casos é demais para mim: o corpo é meu, a coxa esquerda é minha, o cisto é meu e só o que eu posso fazer é respirar e relaxar. (Para quem gagueja isso é péssimo de se ouvir. E para quem se submete a uma e-sabe-lá-o-que-de-lesão-cística também.)

Esperei, por cinco picadas, a anestesia pegar. A partir daí, só tive que abstrair do remelexo que ocorria em minha perna para iniciar uma linda viagem pelos caminhos da imaginação. É claro que foi então que me lembrei dos detalhes acima descritos, e – especialmente na parte da capinha branca, da unha vermelha e do brigadeiro – eu solucei. O que fez a enfermeira perguntar se estava tudo bem, dizer para eu respirar e para eu relaxar. Paciência.

Conheci os pequenos furinhos interrompendo o branco eterno da parede azulejada, as bolhinhas da pintura branca do suporte da luminária. Ouvi barulhinhos que tentei, em vão, ignorar. Está cortando? Está queimando? O que ele está ligando? Cocei uma coceirinha no pescoço. Tocou meu celular. Duas vezes. Pedi desculpas – uma vez só, hehe.

Lembrei de uma vez em que o otorrino da minha paciente me disse por telefone com sua irônica voz que, sabe como é, era melhor eu não acompanhar a frenectomia dela não, porque eu podia desmaiar.  Naquela oportunidade eu tentei argumentar até onde a humilhação permitia, mas hoje eu diria, muito serenamente, “o senhor tem toda razão”.

Deitada naquela maca, vendo a hora passar, eu decidi que sim, eu era forte, eu era uma profissional da saúde muito bem formada, mas livre para optar por não espiar nada que estivesse acontecendo em frente ao Dr. Dermatologista. Foi quando um movimento ocular rebelde e insubordinado fez com que eu visse uns dedos de luva sujos de sangue. Pronto! Destruiu meu sonho. Justo quando um arco íris com fim em si mesmo emoldurava minhas lúdicas imagens de esferas perfeitas e branquíssimas saindo de dentro da minha pele e flutuando para a atmosfera, compondo com o tom salmão do meu vestido uma cena digna de Jelly Jam.  

Bem, depois de tudo terminado, doctor D. foi muito nobre em me estender sua pinça com aquela… verdadeira… bola de sebo pendurada na ponta. Mais nobre que o obstetra que negou-se a me mostrar a placenta do meu filho. Será que é porque o bebê ficou só nove meses dentro de mim, enquanto que o cisto ficou logo uns vinte anos? Hum…

Sei que, oscilando entre o lugar comum do alívio pelo fim da novela cirúrgica e o temor do que meu corpo possa vir a aprontar agora, eu muito me confortei ao rezar no começo e no final de tudo a invocação a Santo Inácio de Loyola: “Dentro de Vossas chagas escondei-me”. Certamente, é das chagas e dessa súplica ao bom Jesus que vou me lembrar sempre que olhar para essa cratera em minha perna e para a cicatriz que agora faz parte da minha história.

A horta do vô Pedro*

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Perto do centro de São Bernardo, num bairro chamado Vila Duzzi, morava um bisavô.

Velho, brincalhão, grandão e muito forte, ele gostava muito de comer feijão, de pescar na represa Billings, de consertar coisas em seu porão e de cuidar de sua horta no quintal.

No porão, tudo era escuro e tinha um cheiro fechado.

Lá, uma vez por ano, ele fazia vinho. Esse é um jeito de aproveitar a agricultura, porque as uvas são colhidas, esmagadas, misturadas com açúcar e fermentadas, e depois ficam em grandes vidros, chamados tinas, borbulhando até o vinho ficar pronto para os adultos beberem. Essas borbulhas fazem um barulho engraçado, e o vô Pedro achava que pareciam sapos.  As crianças gostavam de entrar no porão do vô Pedro para escutar os sapos coaxando. 

Na horta, tudo era iluminado pelo sol, e tinha um cheiro aberto e muito ventilado.

Lá, ele já plantou muitas coisas. Salsinha, cebolinha, manjericão e manjerona, que eram usados como temperos.  

Alecrim, boldo, louro e hortelã podem temperar também, mas ele usava principalmente para fazer chás. Uma erva chamada marcelinha galega, que ele também plantava em sua horta, dava um chá ótimo para fazer a dor de barriga passar.

Almeirão e alface eram as verduras que ele mais plantava. O almeirão, que ele chamava de “almerôn”, crescia muito bem em sua horta, e ele adorava comê-lo na salada, mas as crianças achavam um pouco amargo…

Quando as plantações estavam novinhas, com as folhinhas começando a crescer, ele dizia que era um “berçário”. Então, colocava espantalhos na horta, para os passarinhos não chegarem nem perto. Uma vez, as crianças tentaram fazer um espantalho com roupas de verdade e um chapéu velho, mas normalmente os espantalhos que ele usava eram mesmo pedaços de ferro comprido enfiados na terra, que balançavam com o vento. Um bom jeito de aproveitar as sucatas…

Também plantava limão e tomate. O Davi, bisneto do vô Pedro, aprendeu a gostar de tomates quando comeu um tomate da horta, quando ele tinha um aninho. Nesse dia, ele se lambuzou muito… e até hoje adora tomates.

Por muitos anos a horta foi em chão de terra. Depois, foram cimentados uns corredores ao redor das áreas de plantação, e ninguém podia pisar nos canteiros (isso evitava que os pés sujos de barro deixassem pegadonas de avô e pegadinhas de netos por toda casa). Os netos brincavam que os corredores eram ruas e avenidas, escreviam neles seus nomes com giz de lousa e brincavam de trânsito com suas bicicletas e motocas.

Nos finais de tarde sem chuva, ele aproveitava o ar livre regando sua horta com a mangueira, enquanto músicas antigas e instrumentais tocavam no radinho a pilha que ficava lá no alto da escada. É, o rádio ele não queria molhar… Mas se estivesse calor e alguma criança sapeca passasse por ali, era banho de mangueira na certa!

Depois, os netos cresceram e o vô Pedro ficou mais velho.  Já não era tão fácil para ele ficar ajoelhado adubando, removendo mato, plantando e colhendo. Então, foram construídas áreas elevadas para os canteiros. Assim, o bisavô pode cuidar da horta ainda por muito tempo.  

Em alguns canteiros, ao invés de horta de alimentos, havia belas flores. Algumas, o vô plantava para embelezar. Outras, apareciam ali de surpresa, plantadas pelos passarinhos e borboletas do bairro, que carregavam pólen de outros quintais. Acho que os passarinhos e insetos faziam isso em sinal de gratidão, porque deviam gostar muito de sobrevoar esses pedacinhos de natureza no meio da cidade.

Além de ervas e vegetais, o vô Pedro plantou muitas coisas boas em sua longa vida. Depois de bater por oitenta e sete anos com muita saúde e energia, o coração do vô Pedro parou, e hoje ele mora lá no Céu. Nos dias em que o seu xará, São Pedro, não manda chuva, o vô dá fortes gargalhadas enquanto rega uma bela horta nas nuvens…

 

Para Davi, Pedro, Alice, Artur, Riquelmi e Renan.

Postado em comemoração ao aniversário natalício de 90 anos do saudoso vô Pedro.

* Livro artesanal, elaborado como contribuição ao projeto “Cooperativas agrícolas: plantadores do bem”, da escola do Davi.