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SMAM: Seja um Multiplicador do Apoio às Mães

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Hoje começa a Semana Mundial do Aleitamento Materno, SMAM. Estas letrinhas também abreviam “Seja um Multiplicador do Apoio às Mães”.
Nestes próximos dias, traga à consciência o fato de que ninguém mais, além daquela determinada mulher, é mãe do filho dela. E de que ela é a melhor mãe que pode ser naquele momento.
Deixe que a prioridade de uma mãe recente seja seu filho. Aja respeitando o espaço deles. Compreenda o tão típico momento atípico que vive uma casa puérpera.
Pergunte se e quando deseja visitas. Disponha-se para realizar tarefas cotidianas que poupem o tempo de trabalho dela. Seja pró-ativo e cuide para não ser invasivo.
Ofereça água, carona, faxina, carreto para as compras, um ombro silencioso.
Escute as angústias, as dores, os lamentos, os medos e os pavores. Dê espaço para que saiam pela boca as palavras presas na garganta e para que saiam pelos olhos as lágrimas do indizível.
Compreenda as contradições. Nenhum de nós é o dono da coerência. Muitas coisas vão mesmo bem, e não é por elas que ela se lamenta.
Tenha paciência com o processo de adaptação da mulher e do bebê à amamentação. Persista ao lado dela. Cuide de não disseminar mitos e histórias de terror.
Confie na natureza feminina e busque informações fidedignas. Ajude a dupla necessitada a procurar mais ajuda.
Não desista primeiro. Enquanto ela tem esperança, confie. E se assistí-la chegar ao seu limite, sinta-se privilegiado por testemunhar o espetáculo da humildade humana. Respeite, com a totalidade da admiração que se pode ter pelo real.
Procure compreender os desejos da mãe, mesmo que sejam diferentes dos seus. Compartilhe a sua experiência e faça suas sugestões com delicadeza e respeito. Detecte quem é o protagonista do momento.
Permita que mulheres amamentem em seu estabelecimento comercial, em seu local de lazer, em sua igreja, em um cantinho confortável da sua casa. Mesmo que o bebê já seja grandinho na sua opinião.
Não insista para que a mulher que amamenta coma o que você quer, nem para que consuma álcool. Não fume perto dela ou de seu bebê.
Por mais que te doa, aceite que mulheres ofereçam a seus bebês outros alimentos que não o leite materno. Mesmo que ainda sejam muito pequenos na sua percepção. Elas têm motivos.
Entenda que jovens bebês são alimentados por suas mães e favoreça essa vinculação sempre que possível.
A amamentação é uma possibilidade muito poderosa de estabelecimento do laço entre mãe e filho. Deve ser promovida e protegida.
A amamentação não é a única forma de vínculo profundo entre a mãe e seu bebê. Caso seja impossibilitada ou interrompida, ajude a dupla a fartar-se do restante: tempo, colo, olhar, convivência, pele, cuidado. E compreensão.
Esta semana, e nas outras também, seja um multiplicador do apoio às mães.

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Amamãetado

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Amamãetado

Olhou para o brilho nos olhinhos pisquentos de seu bebê. Sentiu na pele sua respiração tranquila, que outrora fizera tantas cócegas no peito em ebulição. Escutou o clunk e viu, no pescocinho já comprido, o movimento de deglutição que tanto procurara muitos meses atrás, quando deixou que dúvidas hoje sem sentido a torturassem (será que ele estava mesmo engolindo?). Viu uma gota branca escapar da pega, já tão relaxada… Ele dormiu. Dessa vez – apenas dessa vez – ela não dormiu.
Nunca teve muitos medos de derrubá-lo, dormindo ao amamentar, apesar das histórias ameaçadoras que ouviu de muitas bocas (as mesmas que sempre têm algo tenebroso para contar da gestação, do nascimento…). Nunca desconfiou de seu sangue de fêmea, de mamífera, de mãe. Seguia meio misturada àquela coisinha, àquele filhote, parte do tempo do lado de dentro, parte do tempo do lado de fora.
Sempre a deixaram amamentar. E ela também sempre se permitira a isso, mesmo quando as costas ainda não haviam tido tempo de esticar-se e o chorinho irritado já pedia peito de novo. Mesmo nas madrugadas frias, em que levantar o pijama era torturante, e mais torturante ainda era tirar do colo sua bolsinha de gente quente, que ela devolvia para o berço numa dança de marcas já decoradas.
Uma vez declarou ao marido, com voz ofendida e embargada, dramática, que mamadeiras ali não entrariam enquanto ela estivesse viva. Era simbolicamente uma questão de honra. Ela ainda não sabia que um dia cada mamada entraria em perspectiva e o saldo da amamentação seria muito mais significativo do que os ml de água fervida que deram ao seu bebê de dois dias, muito mais global do que quaisquer refeições dele que precisasse delegar a alguém. Mas, por acaso, por circunstâncias, e também por empenho, nunca precisara delegar as mamadas.
Quando teve o insight de pôr nas primeiras papinhas seu ingrediente secreto, relaxou de tal maneira que passou a ser um prazer enorme dar o almoço ao pequenoio. Quem já provou leite materno com mandioquinha? Delícia! Ela ficava até feliz quando sobrava! Um dia entenderia que a (desnecessária) “cisão” peito x comidas a aterrorizava de tal forma que tornava difícil demais para sua mini-parte comer numa boa…
Mesmo depois do advento dos legumes e cereais, amava deixar seu bebê escalá-la, descobrir posições novas para mamar, interpretando ora um ursinho, ora um macaquinho gorducho, observando os encaixes que mês a mês mudavam, porque o filhote crescia, de tanto que mamava, e a mamãe autorizava variações, de tanto que confiava nele.
Para ela, amamentar era uma oportunidade, um privilégio, um trabalho, um dever, uma alegria, um direito, uma honra. Acreditava nisso antes mesmo de gestar. Acreditando nisso, apoiou outras mulheres, deixou que sua presença ao lado delas, em silêncio, permitisse mamadas intermináveis e bem sucedidas, que não eram o padrão. E, depois, pode sentir na própria pele que amamentar em companhia podia ser mesmo muito bom. Mas muitas vezes teve coragem de pedir licença e de desfrutar da única companhia imprescindível. O dono daquele leite. O dono daquele amor. Seu bebê.
Olhou para seu anel de laço dourado, ma mão que ela apoiava sobre a pancinha cheia do filhão. Olhou para seu bracinho macio, para o decote da roupinha, hoje manchado de beterraba, para o tufo de cabelo fino que ele tinha mais no meio da testa, para seus cílios, para sua boca gorducha. Por quanto tempo mais a sugaria? Por quantas mamadas mais?
Então a ocorreu que aquele serzinho inteiro estava recheado de suas gotas mágicas para todo o sempre. E que, da mesma forma que, um dia, o cordão umbilical fora cortado, esta atual conexão, boca plugada no peito, daria lugar a outras, algumas já existentes, algumas por surgir em espaços do futuro que viveriam juntos, cheios de amor e de gratidão.

Este post faz parte da Blogagem Coletiva: “Por que sou ativista da amamentação?”, segunda edição (2013).